;    Texto da minha infância
                                             

                                                                                                                  

Poderia inventar uma história a partir dos dados da viagem vivida e real. Poderia falar de uma outra viagem qualquer, onde certamente iria descrever pormenores que poderiam ser interessantes. Mas apetece-me fazer uma narrativa, onde o que vai ser contado me aconteceu, me marcou, me levou à amargura, mas também a amar e a  gostar de outras pessoas e de outras coisas. Me levou à amargura de deixar para trás essa aldeia e tudo o que de bom nela tinha; e me levou a amar e a apreciar a cidade onde continuei a crescer e me fiz homem.

Tudo começou naquele dia de verão, quando vimos aproximar-se da nossa casa da aldeia (na fotografia), preguiçosamente e aos solavancos, devido ao piso irregular de terra batida do caminho que lhe dava acesso, uma camioneta de carga, de cabine avançada. Era um dia de verão não muito quente, tempo de férias da Escola, onde as minhas irmãs, e eu acabáramos de passar todos de classe, nós que no ano anterior, tínhamos perdido o ano, assim como todas as crianças da escola, devido a um acidente grave com a professora, na estação ferroviária da sede do concelho, não tendo sido substituída. Essa camioneta, seria o meio de transporte da nossa pequena viagem migratória da aldeia para a cidade, o veículo que nos transportaria com os sonhos dos meus pais na procura duma vida melhor.

Naquela idade, não tinha consciência de que este tipo de viagem nos iria marcar de forma tão vincada, tal como a tanta gente, em todos os tempos. Era uma criança com oito anos. Mas nem podem imaginar o que poderá passar pela cabeça duma criança, que é desenraizada de pessoas que amava muito e que a amavam, principalmente do nosso avô paterno (viúvo) e a nossa avó materna, dos amigos e companheiros de brincadeiras, dos lugares onde corríamos em liberdade, onde as noite de verão eram iluminadas pelo pisca-pisca da luz dos pirilampos, a que chamávamos luzicus, onde íamos apanhar grilos para alimentarmos com folhas de alface, onde brincávamos com as coisas mais simples que se podem imaginar. Para fazer essa viagem connosco para Coimbra, a minha irmã mais velha, com dez anos, foi retirada de casa da madrinha que a criara desde tenra idade, como se fora sua filha, pelo que o seu desgosto foi ainda maior. E a revolta jamais lhe passou.

Agora, passados tantos anos, relembro, embora sem a minúcia que gostaria de relatar, de alguns pormenores. Outros, porventura importantes, foram esquecidos, o tempo se encarregou de os apagar da minha memória.

Lembro-me de que os factos que provocaram a decisão dos meus pais de ir viver para a cidade, foram desencadeados por intrigas familiares. Meu pai, desgostoso e revoltado com uma carta recebida duma irmã, emigrada no Brasil, em que o acusava de não tratar condignamente o meu avô, ele que fora o único de quatro filhos que permanecera junto dele, resolveu, com a mágoa e a dor na alma, deixar tudo para trás: Os amigos, a casa que construíra com os seus parcos recursos e as suas mãos e principalmente, o seu pai, com cerca de 80 anos. Por isso, contratou aquela camioneta que nos levaria e aos poucos móveis que tinha, para uma casa numa cave do Alto de Santa Clara, que tinha alugado antecipadamente. Fui na cabina dessa camioneta, onde, além do motorista, iam os meus pais, as minhas irmãs e o gato, o Maltês, fechado dentro de um saco de serapilheira poisado no chão. Era um gato cinzento, tigrado, muito amigo do meu avô. Gostava imenso de os ver enquanto brincava por ali. O meu avô, sentado placidamente no seu banco de pedra preferido, à sombra de uma figueira junto à eira e o gato lhe saltava para o ombro e lhe lambia pachorrentamente a calva ao mesmo tempo que ronronava. Era uma cena engraçada e, ao mesmo tempo, encantadora. E, agora, até o gato tinham tirado ao meu avô!

 

Ao chegarmos a Coimbra, a minha irmã do meio, que estava constipada e com febre, foi levada para dentro de casa e, sentada num dos tarecos, ficou ali com o gato ao colo. Entretanto, a azáfama da descarga dos móveis fazia-se com algum barulho. No quintal, à frente da casa, havia outros gatos que, assustados com o burburinho, treparam para as árvores que por ali havia. Mas, a certa altura, aconteceu o inesperado: Também o Maltês se assustou e, com um salto, fugiu do colo da minha irmã que, surpreendida, não o conseguiu segurar. Trepou também às árvores para junto de outros gatos. E apesar de todos as buscas que fizemos nos arredores, não o conseguimos encontrar, pelo que ficámos ainda mais tristes.

Vivemos naquela casa durante cerca de uma ano. Nessa altura, fomos matriculados na escola primária das Almas de Freire, perto da nossa casa. A minha inscrição foi feita numa outra escola que ficava entre o Portugal dos Pequenitos e o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. O professor que me inscreveu, talvez porque pensou que um miúdo da aldeia era menos inteligente que os da cidade, sugeriu ao meu pai, ser matriculado pela terceira vez na primeira classe, com o que ele concordou. Acabei esse ano a ensinar os outros alunos da mesma classe com a orientação do professor, que era também estudante de Direito, que assim ficava livre para dedicar mais tempo aos alunos das outras classes.

Não voltámos a encontrar nos o gato dias seguintes, apesar das buscas efectuadas à volta da nossa casa, pelo que pensámos que tinha desaparecido definitivamente e que jamais o voltaríamos a ver. Mas, para nossa surpresa, numa viagem que fizemos à aldeia, lá estava ele com o meu avô. E que alegria a que tive por os ver os dois, amigos e felizes! Fiquei feliz por eles e por poder rever aquele animal que teve a independência e a orientação para voltar ao lugar a que estava habituado e que ele considerava a sua casa. Foi então que viemos a saber que sua viagem de regresso durou cerca de quinze dias, por montes e vales, cheios de pinheiros e de mato. Chegara sedento e faminto, muito magro, digno de dó. Mas depressa arribou. E ainda hoje me interrogo como é que o gato, que viajou dentro de um saco de serapilheira no chão da cabine da camioneta, conseguiu dar com o caminho de volta. Ah, fossem os homens tão dedicados às suas amizades e aos seus afectos e de certeza que viveríamos num mundo melhor.

 

Aprendi a gostar daquela cidade como gostava da aldeia, que visito regularmente. Naquela cidade me fiz homem. Naquela cidade tenho amigos, principalmente aqueles que reencontro todos os anos nos almoços de convívio da Escola Comercial onde fui aluno. Saí de lá para ir para a tropa e, depois, para a guerra colonial. Mas ficou-me a saudade. Por isso, esta quadra que fiz há uns anos:

 

Coimbra, oh que saudade,

Dos tempos de antigamente,

Dos amores da mocidade,

Dos amigos, de tanta gente!

Deixo, para terminar, a mensagem de António Nobre, gravadas na Pedra no Largo da Portagem, junto à ponte de Santa Clara;




                                          

                                                                                                                          Diamantino Santos

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