O   Telegrafista ou  (Já não carrego mais com ele )


                    Mueda, 1967 /  68

                            Hoje é dia de patrulha. O meu grupo de combate sai  à porta de armas, viramos à esquerda,

            G3 na perpendicular, introdução do carregador e puxar  a culatra atrás para introduzir bala na camara.

            Passamos pelo China, onde há sempre umas " bocas ", viramos à direita pela picada que irá até ao

            limite da nossa zona operacional, que se situa perto de Miteda.

                        Cerca de trinta militares, em bicha de pirilau, vão pelo extenso areal, sempre andando, com

            muita cautela, evitando os rodados das viaturas, quase sempre no meio da picada. Passamos pelo trilho

            que atravessava o  Chindorilho , vindo da fronteira do Rovuma,  e
continuava para o interior do planalto.

                        Fizemos algumas paragens, ficando uma secção na picada, outra ia para a esquerda e a restante

            para a direita, á procura de possivel passagem de  pés descalços ( civis ) ou sinais da passagem de botas

            ( guerrilheiros ), voltando novamente a reagrupar o grupo de combate. Assim continuamos até ao

            limite da nossa Zona, onde parámos mais tempo para almoçar as nossas rações de combate.

                       Dada a ordem para iniciarmos o regresso, 
preparámo-nos para a nossa formação habitual, quando

            ouço, vindo do transmissões,  " Não levo mais isto às costas ", apontando para o rádio. O Alferes, que

            também tinha ouvido muito bem, disse-lhe " Pega nessa merda, às costas ou  ao colo, e vamos embora "

            dirigindo-se para a seu posição no grupo, convencido que o assunto estava resolvido.
Todas as secções

            já estavam no seu local e preparadas para iniciar a marcha e o telegrafista continuava sentado ao lado

            do radio. Não era responsavel pelo telegrafista e pelo maqueiro, que não pertenciam a secções especificas,

            no entanto na ansia de acabar com aquela " treta " , sentei-me ao seu lado e disse-lhe:

                    -  Tens apenas duas hipoteses, a má, ficando aqui com o rádio e com a arma és considerado desertor

            com roubo de material de guerra, ou a menos má,  pegas no radio novamente e integras-te no pelotão.Não

            podia fazer mais nada, leventei-me e dirigi-me para a minha secção, aconselhando os camaradas 

            a não olharem para trás.Não demorou muito tempo passa por mim o telegrefista, com o radio às costas,

            trocamos olhares e todo o grupo de combate continnuou o regresso, como de nada se tivesse passado.

                        A noite já aí vinha, rápido, voltámos a passar perto da aviação, onde as bocas recomeçaram.

                        Chegados ao quartel, cada um encaminhou-se para o se local habitual. O Alferes disse-me que ia

            fazer o relatório da patrulha, omitindo a situação, mas que iria falar pessoalmente com o Capitão,

            responsável pela Companhia.

                        Dias depois soube que o Capitão tinha decidido que ele iria na próxima operação e que se tal voltasse

            a  acontecer lhe abrir um inquérito por desobediência em estado de guerra.

                        Passado algum tempo, a secretaria pagou a carregadores para levarem o rádio para operações,

            não sabendo, ou não me lembro, se houve ou não alguma relação com o acontecimento relatado.


                                           Linda-a-Velha, Julho de 2017

                                                        José Fernando Pascoal Monteiro

                                                    Ex- Furriel Miliciano

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