Quartel em Mueda, Maio de 1967 a Junho de 1968.

                  Hoje estou de serviço, de sargento da guarda. O brigadeiro, comandante de sector, não nos visitou,

    não havendo formatura e saudação na porta de armas, o que é sempre um alivio.Há sempre um camarada no exterior, em

    posição de descanso, com G3 e cinturão com carregadores. Há sempre militares a entrarem e a sair, os civis ou são

    conhecidos, mainatos ou guias, ou então têm que se identificar. Normalmente a saudação militar era feita ao comandante 

    do batalhão ou ao seu vice, todos os outros oficiais ou sargentos , por  norma, não tinham esse " privilégio ".

                O dia corria bem, não havia ocorrências , o tempo ia passando e a noite aproxima-se e com ela redobram as

    cautelas. Além do guarda habitual, ficaam cá fora sempre mais um ou dois elementos do corpo da guarda, os restantes

    recolhem para o interior onde existe a prisão, uma secretária e uns bancos corridos, que alguns aproveitavam para se

    " esticarem " e passar pelas " brasas ".

                A prisão, há muito que está ocupada por dois individuos, um militar e outro civil.

              
O civil, que apenas dizia duas ou três palavras em Português, ainda hoje, passados 50 anos,

      recordo o seu nome, " Panamata ". Foi apanhado pelo
turbilhão da guerra, tinha passado pela Pide, que nada assinalou,

      não era pela tropa, mas também não era contra, o que
ele queria era voltar para a sua machamba, no Vale de Miteda,

      onde a tropa o tinha encontrado. Recebia a alimentação, como qualquer um de nós, e tocava no fundo de uma lata de

      de fruta em calda, com os dois dedos indicadores onde extraia um som tipo batuque. Quando começava a tocar dizia:

       " Panamata " amigo, era sinal para lhe darem um cigarro.

                O militar, sempre foi uma figura misteriosa para todos nós. Era do recrutamento da provincia, de cor, portanto

        seria do esquadrão de cavalaria ou de artilharia. Bem falante, por vezes demasiado, escrevia muito bem,

        pois mostrou-me uma carta, que disse ser para a família. Nunca soubémos, pelo menos ao nivel de Furrieis, a

        razão para a sua prisão. no entanto ele disse-me que ali estava por problemas politicos, o que ninguém

        acreditou, pois se fosse por isso há muito que não estaria ali mas sim numa prisão em Lourenço Marques. A

        noite foi passando e , sentado á secretária,  aproveitei para escrever para a família e amigos. De repente,

        começo a ouvir disparos de G3, todos vimos  à porta e apercebemo-nos que o som vinha do posto de sentinela

        da esquerda, junto à estrada e do lado do campo de futebol. Como se houvesse contágio, os disparos aumentaram

        de intensidade , vindos de outros postos, até os obuses,  virados para o Vale de Miteda, se fizeram ouvir. Todos

        nós tinhamos sempre o dedo junto ao gatilho. Não tinha havido ataque nenhum, o que se passou, alvo de relatório,

        foi que nessa noite tinha falhado a luz da " avenida ", que dá da porta de armas até ao Santos e ao China e o

        sentinela viu alguém aproximar-se, como se fosse ao zigue zag, e e deu dois tiros para o ar. O vulto continuou

        na mesma e ele descarrega o carregador e a partir daí todos o alvoraço dos sentinelas. O militar vinha do

        China, já com uns copos bem aviado e acabou por passar a noite na prisão e no outro dia entregue á sua


        companhia.

                    Mais um episódio, vivido em Mueda, que o tempo, já muito, ainda não levou.


                            Linda-a-Velha, Setembro de 2017

                                José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

             
Regresso ao Cantinho do Monteiro