Saida de Mueda


                 


                                                           
                    16 de Junho de 1968, dia histórico para recordar SEMPRE. Sai,  finalmente, de Mueda.

    Não dormi, ninguém dormiu naquela flat Nº2. Tinha uma mala, que tinha comprado no Casão

    militar em Lisboa,  e um saco militar que me tinham dado em Chaves. Fui tomar banho, aqueles

    " sacanas " anteciparam-se  e o " aquecimento solar " já não deu para mim. Não faz mal, hoje é

    dia de saida definitiva deste vespeiro. Fardamento camuflado com dolmem, que sempre gostei por

    ter muitos bolsos. Coloquei a mala, o saco, a G3 e o cinturão com os carregadores a um canto e

    devo ter pensado para mim: Estou pronto.

                Eramos sete, naquele " apartamento " dividido em dois quartos. As camas foram arrumadas

    no quarto do fundo, para assim podermos ter mais espaço. De certeza que houve comes e muitos bebes,

    para ajudar a passar a noite mais rapidamente.

                Fui tomar o pequeno almoço e comecei a deambular pelo perimetro do quartel.

                Percorri todos os quatros postos de sentinela, fui á secretaria, onde havia os jantares de

    aniversários, fui à arrecadação de material de guerra, onde revi o gerador de acetileno, fabricado

    pela firma onde fui sempre empregado, fui á caserna da minha companhia, onde " moravam " os

    camaradas do meu pelotão, especialmente os da minha secção, com quem tinha convivido mais. Coloquei-me

    no centro da enorme parada e dei uma volta de 360 graus a contemplar todos aqueles edificios. Sai do quartel

    pela direita, e fui ao aldeamento, tinha que lá ir. Dei uma pequena volta por um ou dois arruamentos e desta

    vez não ouvi " Furrié quer fazer máquina??? ", ainda era muito cedo e muita população ainda deveria

    estar a dormir. Passei novamente pelo quartel, onde já havia algumas viaturas alinhadas e ainda deu tempo

    para ir ao outro extremo da Vila onde estão o Santos e o China.

              Regressei ao quartel, onde já havia camaradas perto das viaturas. Entrei na casa da guarda e relembrei

    vários episódios ali vividos, ainda passei pelo gabinete do oficial de dia e caminhei rápidamente para a minha

    flat. Peguei na mala, no saco, no cinturão e na G3 e coloquei tudo no unimog que me estava destinado. Mais

    camaradas se aproximam com os seu apetrechos e a coluna continua a engrossar. Duas companhias mais os

    carros de combate do esquadrão formam uma enorme coluna. Vou para o meu lugar no carro, o lugar do morto,

    ao lado do condutor.

            Tudo está pronto e a coluna arranca, ainda há um último olhar para o interior do quartel. Passamos pela

    engenharia, pela intendência e pelo pad e finalmente pelo China e pelo Santos, entrando na picada em

    direcção a Moçimboa da Praia. Aproxima-se o areal, o chindorilho e algum tempo depois chegamos ao Sagal,

    onde uma companhia do nossa batalhão se junta à coluna. Abraços de amaradas que não nos viamos há muito,

    alguns que nos reencontrámos no Vale de Miteda, em operações, outros que iam a Mueda para reabastecimento.

    O momento não era de espera, e ai estamos de novo na picada e já próximo da curva da morte, que passamos

    sem problemas e aproximamo-nos de Diaca, onde nos espera outra companhia do mesmo batalhão. Sorrisos

    por todo o lado, entusiamo a transbordar. De novo na picada com o pensamento em Mocimboa da Praia.

                Finalmente chegamos. Não deu tempo para ir beber umas cervejolas acompanhadas com o

    excelente , e barato, camarão. Nada de grande importância, ao largo estava o Império à nossa espera,

    para nos levar para a Beira. Já a bordo, rápidamente coloquei os pertences no camarote indicado e

    fui para a amurada observar aquele movimento.

                Nos quarteis onde saimos ficaram camaradas que formaram a chamada companhia de quarteis,

    para entregar tudo aos checas.

                Tinha terminado metade da comissão de serviço, o pior já tinha passado, pensei.

     
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