Os Rodesianos no Béne


                    A minha companhia saiu de Mueda  em 16 de Junho de 1968, rumo a Mocimboa da Praia,

        onde o barco nos esperava e daqui para a Beira, onde se iniciou um longa viagem de comboio com destino

        a Moatize.Aqui, em viaturas militares, fomos conduzidos ao nosso destino, Vila Coutinho, no Distrito de Tete.

        A vila fica na região de Angónia, bastante rica em pecuária, agricultura e frutas.O clima era ameno, não

        existindo grandes amplitudes termicas.Dois dos grupos de combate, ficaram instalados na própria vila, os outros

        dois foram para os destacamentos de Domué e Tsangano, rodando todos os pelotões pelos destacamentos.

                  A situação era completamente diferente de Cabo Delgado, aqui não havia guerra, e andavamos na vila

        completamente à vontade e sem armamento, muito embora existiam já informações confidenciais da passagem

        de elementos da Frelimo, que andavam em contacto com a população.

                O tempo foi passando, quando , perto do final do ano de 1968, recebemos ordem para ir reforçar a

        companhia de cavalaria que estáva a actuar na zona do Béne.

                Recebemos instruções sobre a forma de actuar, pois no Béne havia vários aldeamentos espalhados fora

        da localidade e não os podiamos considerar como inimigos, como acontecia em Cabo Delgado.

                Aqui observei que havia muitos helis alouette III, iguais aos nossos, mas com a identificação tapada.

         A razão encontrei-a à noite, na messe de sargentos, onde me encontrei com tropa Rodesiana, sendo

         uma boa parte deles luso-descendentes, falando muito bem Português mas já com algum sotaque.

                Fiz alguma operações conjuntas em terra, nunca viajei de helicóptero, nas várias ocasiões

        em que poderia ter acontecido. No mato eram muito bons, disciplinados e tinham excelentes pisteiros.

        Diverti-me com as rações de combate Rodesianas, não sendo superiores às nossas, não esqueceram

        de terem o seu chá, fazendo uma fogueira, à tarde, para se retemperarem com um chá quente.

                O encontro com os novos companheiros Rodesianos, era na messe que acontecia, já ao

        entardecer, quando as patrulhas acabavam. Deram uma razia no stock de garrafas de vinho do Porto.

        Havia um primeiro sargento que depois de  "emborcar" alguns copos de vinho do Porto, deitava-se

        num banco comprido, bastante estreito, a acabar a garrafa.Sempre se queixou da estreiteza  do

        banco, dizia ele, que não conseguia dormir estendido no banco e que muitas vezes caia.

                Dormiamos em tendas grandes, à noite com o frio, tinhamos que colocar muitos cobertores. O

        banho era quando chovia. vinhamos para fora das tendas com o sabão na mão.

                Passamos o Natal de 1968 nesta zona, nesse dia não houve saidas operacionais e ao almoço

        foi servido o tradicional bacalhau com todos e  servido vinho.Um luxo comparado com dias normais.

                Mais uma noite na messe de sargentos, local de confraternização habitual. Lá estáva o primeiro

        Sargento Rodesiano, com mais camaradas, dirigindo-se a mim disse-me que hoje iria dormir no banco

        corrido e que não iria cair. Duvidei da ideia e do acto, no entanto lá foi direito ao banco, sempre com

        uma garrafa de Porto na mão. De vez enquando olhava para mim, em jeito de saudação, e levava a

        garrafa à boca. Ainda por ali estive até  ele adormecer com os braços pendentes, cada um para seu lado.

                No dia seguinte, como não me competia sair para o mato, fui tomar o pequeno almoço mais tarde.

        O Primeiro Rodesiano não estáva no banco, perguntei ao camarada que tomava conta da messe e disse-me

        que o tinha deixado a dormir no banco, na noite anterior, e quando abriu a messe já não estáva ninguém.

        Fiquei sem saber se o meu novo amigo tinha ou não caido do banco. Esperei pela noite, nocamente na messe

        onde apareceram os Rodesianos e lá estáva o Primeiro que se dirigiu a mim com a expressão, e um sorriso

        nos lábios, " O vosso vinho do Porto até dá equilibrio aos bancos".

                  Várias noite se passaram até que fomos embora do Béne e regressamos a Vila Coutinho, onde camaradas

        nossos foram fazer o nosso percurso de intervenção.

                    Mais uma pequena história vivida , que vou contando e recordando, ao sabor do tempo que passa.


                                                      Linda-a-Velha, Julho de 2016

                                              José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

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