Para lembrar é preciso esquecer “

40 Depois:

 

Faz 40 anos. Na minha memória, que o tempo entretanto corroeu, ainda restam lembranças que nos meus 22 anos de vida de então davam azo ao fervilhar de paixões e aventuras.

Era tempo, esse tempo, cheio de interrogações e de medos que percorriam a mente sobressaltada pela incógnita do longínquo de incertezas várias que se avizinhava, como pela descoberta de outro mundo cheio de fantasmas e receios.

Era tempo de juventude, (quando somos jovens, temos manhãs triunfantes), das ilusões, tempo da ingenuidade, de certa imaturidade mas, de uma generosidade sem limites, que me levou descobrir a palavra camaradagem alicerçada numa amizade e estima para sempre, (um amigo seguro revela-se na adversidade). Aqui, conheci muitos que infelizmente já não me recordo, mas ainda sei que há: Monteiro, Mateus, Diamantino, Eurico, Ferreira, Alves, Adolfo, Coiteiro, Duarte, Guilherme, Marcelino, Nascimento, Simões, Paklo, Sousa e Rodrigues. Outros houve que por variadíssimas razões já partiram… mas que permanecerão eternamente no meu coração.

 

Certo dia pela tarde, chega-me a informação de que estou mobilizado para Moçambique e que devia preparar-me para me apresentar no dia seguinte no B. Caçadores nº. 10, em Chaves. O meu destino final era o Batª. Caç.1916, Compª. 1710.

 Colocado no 1º. GCAM, Povoa do Varzim, desde o fim da recruta, pensava já não ser mobilizado dado o tempo então decorrido. Foi com algum espanto e até de raiva com que recebi a notícia. Passado o primeiro choque, lá fui fazer a mala, receber a Guia de Marcha e comunicar à família a triste noticia.

Embarquei pela noite no comboio que partiu da Povoa. Chegado ao Porto transferi-me para o que me levou até Chaves. Se não estou em erro cheguei ao quartel a meio da tarde.

Quando chego à caserna que correspondia à companhia nº. 1710, para me apresentar, dirijo-me a um militar pergunto onde fica a Secretaria. Diz o meu camarada, ó pá é ali, apresenta-te ao “sapateiro”. Bem fiquei atrapalhado, a minha ignorância no léxico de sobrenomes era enorme ao tempo. Pensei que o fulano estava querer tirar partido dessa “ignorância” e aproveitar um momento de gozo geral, levando-me à presença de um verdadeiro sapateiro.

Qual o meu espanto quando entro na Secretaria e reparo que na lapela de um 1º. Sargento, constava um nome muito curioso, …… CÓ SAPATEIRO. O mistério estava esclarecido e eu aliviado.

Quando vou a Chaves, sinto sempre uma nostalgia que poderei chamar emoção ao reviver um passado vivido junto dos meus companheiros de jornada. Os bons e maus momentos que todos passamos, foi a cozedura que nos moldou como homens, PRO FUTURO, que deram o melhor de si pela PATRIA e PORTUGAL.

Bem-haja todos.

“Só se possuem eternamente os amigos de quem os separamos  

Viana do Castelo, 11/05/09

Francisco Dias Ribeiro


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