Reflexões

   
                De Janeiro de 1966 a Junho de 1969, dei três anos e meio da minha juventude a  uma causa que me diziam

    ser Nacional, para defender a  Pátria.

                Foi na década de sessenta, do século passado, que começou a nossa  grande emigração. França, Alemanha,

    Inglaterra e Canadá e Estados Unidos, eram , na grande generalidade, os paises que nos acolhiam. A grande maioria

    por necessidades económicas, outros, os filhos das elites, os mais esclarecidos, para fugirem ao serviço militar.

                Disseram-nos que Portugal era um grande País, em extensão territorial, que ia do Miinho a Timor, no entanto

    para os nossos territóriios Ultramarinos, ou Colónias, poucos Portugueses eram autorizados a fazerem nova vida. Por

    lá existiam as grandes companhias, geralmente estrangeiras, chamadas de majestáticas que exploravam os nativos

    por uma concessão territorial.

                A meio da década de cinquenta, com o eclodir do nacionalismo africano e depois com a independência de

    alguns Paises, Portugal abriu  a ida de civis para o Ultramar, pois necessitava de povoar o território.

                Quando  se dá o Fevereiro de 1961, em Luanda, os civis ficam surpreendidos mas é  em  Março, do

    mesmo ano, que se dá o grande massacre de civis. No Continente, as fotos foram passadas em todos os meiso

    de comunicação, especialmente na televisão. Todos ficamos chocados e soilidarios com os nossos concidadãos.

    Sabemos hoje,  que o estado Português foi avisado do começo da luta armada da UPA, pelos serviços secretos

    americanos, e que não quis intervir antecipadamente, por questões de puro aproveitamento politico.

                Cheguei a Moçambique em 1967. Conheci , e fiz novas amizades, quer de companheiros do Continente,
 
   quer os nascidos no território. Gostei da vida em África, os ali nascidos, com quem eu mais contactei, tinham um

   espirito muito  mais aberto do que nós Continentais, e o seu nivel de vida era bastante bastante bom.

                Havia uma grande diferença. cultural e económica , entre brancos e negros, notória especialmente nas

    grandes cidades, fora destas, e onde não havia guerra, eram as missõe,s de cariz religioso, que apoiavam as

    populações, quer na saúde, quer no ensino.

                Sai em Maio de 1969. O único movimento independista, com organização, era a Frelimo. Até Abril

    de 1974, os guerrilheiros estavam a aumentar o território e nós a abandonar alguns quarteis, pois já começavam

    a faltar homens, especialmente graduados, para manter a guerra  e a posição no terreno.

                Não olhamos para o problema Argelino, e suas consequências em França, não aprendemos com

    o que se passava com os territórios Ingleses em África. Não olhámos para essas possiveis experfiências, continuámos

    cegos, surdos e mudos e orgulhosamente sós.

                Perdeu-se uma grande oportunidade de executar uma transição pacifica. Tinhamos que dialogar com os

    movimentos da guerrilha. Claro  que a descolonização não foi exemplar, longe disso, mas como se poderia

    exigir tal coisa com uma revolução no Continente????

                Nem mais um soldado para as Colónias, ouvi e vi escrito por aqui. Então e aqueles , que por lá estavam,

    e que já tinham terminado a comissão???????

                Quem, nessa situação, estava disposto a lutar???? Fartos de guerra já todos estavam.

                Muitos foram para a África do Sul, alguns para o Brasil, mas a grande maioria dos nossos concidadãos

    vieram para o Continente, onde muitos regressavam e onde muitos, também, nunca por aqui tinham nascido.

                 Tinhamos que os receber, formou-se então a maior ponte aérea do pós segunda guerra mundial.

                  Muitas vezes observei os caixotes, ali em Alcantara, junto á beira mar, muitos com poucos haveres,

    deixando por lá os pertences de uma vida.

                    Houve excessos????? Claro que houve, de parte a parte.Com a partida  repentina dos brancos,

    o país ficou sem quadros e completamente á mercê da politica que os tinha apoiado na guerrilha.

                    Os guerrilheiros lutaram por um País, por uma Pátria a que tinham direito, estando no lado certo,

    só que também havia, por outro lado, pessoas que tendo ou não ali nascido, tinham direitos. e que foram

    abandonadas ao longo dos anos.

                    Já não faz qualquer sentido dizer que negro é de África ou que branco é Europeu. Africano

    é quem nasce em África e Europeu quem nasce na Europa, quer seja negro ou branco.

                    O tempo, esse grande " curador " de  feridas,  foi passando e hoje concidadãos nossos, que

    sempre gostaram de África, estão a regressar ao Continente Africano, pois os novos paises necessitam de

    quadros para se desenvolverem.

                    Se Angola era a nossa jóia da coroa, pela sua riqueza, Moçambique, ficou no nosso coração pela

    riqueza humana do seu povo.


                                                                         José  Fernando Pascoal Monteiro

                                                                                Ex- Furriel Miliciano

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