A vida no mato

   
                                                             
               
                Nunca possui uma forte compleição fisica, era alto e magro, no entanto tinha uma vontade enorme de

    nunca desistir, e nesse aspecto era forte psicológicamente.Já na recruta, em Tavira, nas marchas finais de Sexta-feira,

    nunca desisti e nunca me deixei ficar para trás o suficiente para poder perder o meu fim-de-semana.

                Em Mueda, sempre que saia da picada e entrava no mato, era um grande alivio, pois as emboscadas,

    as minas ou os fornilhos tinham ficado para trás, no entanto era ali na mata que havia o grande desgaste fisico.

                Em campo aberto, e na chamada bicha de pirilau,  a progressão tinha que ser rápida e a distancia

    entre camaradas tinha que ser maior por questão de segurança.

                Aproxima-se mais uma operação, e esta ao nivel de batalhão.Dois grupos de combate da minha companhia,

    mais dois de outra companhia do mesmo batalhão.

                Mais de oitenta homens saiem da picada, deixados pelo esquadrão de cavalaria, e entram no capim seco,

    pois está a aproximar-se a época das queimadas, algum tempo depois entramos na zona de mata aberta. Aqui,

    como tinhamos alguma protecção natural, aproveitamos para um caminhar rápido e sem parar até ao almoço.

                Nestas operações de 4/5 dias  tinha que haver uma grande capacidade para racionar os comestiveis

    e especialmente ter cuidado com o consumo dos dois cantis de água. Por mim sempre fui bastante cauteloso com

    a água, nunca enchi cantis em charcos e quando os enchia em riachos ou rios sempre esperei pelos efeitos dos

    comprimidos. Foi sempre assunto de conversa entre mim e os camaradas da minha secção, uns aceitavam e compreendiam,

    felizmente a maioria, outros não aguentavam e então era cantil cheio, cantil bebido, quando me apanhavam noutra função,

                Depois de uma refeição rápida, continuamos a nossa caminhada, onde já perto do fim da tarde, encontrámos

    um trilho.Toda a coluna parou, pois era sinónimo de presença de gerrilheiros ou população que os apoiava, Decidimos

    pernoitar ali mesmo, ficando o trilho cortado em dois lados pela nossa habitual circunferência. A noite  ia caindo e ficou

    decidido , em cada grupo de combate, os respectivos turnos de alerta.Por mim, como raramente dormia, fui dando volta

    ao enorme circulo, para passar o tempo, e confirmar se havia pessoal  que não deveria estar a dormir. Começou por se deixar

    de ouvir as pequenas aves, que com o cair da noite se calaram e comecei a ouvir autenticos choros de criança. Base dos

    guerrilheiros pensei que não fosse, pois estavamos no final do nosso primeiro dia e tão perto de Mueda não acreditaria, mas

    podia haver por perto alguma machamba e alguém da população por ali a dormitar.

                Novo dia nasceu com o pequeno ruido de todos a acordar e a tomar o pequeno almoço.Troquei impressões com os

    dois alferes da minha companhia, que ouviram o mesmo som, e a rir comunicaram-me que os guias lhe tinham dito que eram

    os sons emitidos pelas hienas, que eram frequentes nesta zona do Vale.

                Novamente em marcha, na formação de bicha de pirilau.Com os avançar das horas o sol começa a incomodar e o

    cantil começa a ser levado á boca mais vezes. Apanhamos uma zona de pequenas elevações, mais parecia um carrossel.

                O  sol, bastante intenso,o caminhar e a irregularidade do terreno começam a provocar bastante cansaço  fisico.

    A G3 já não tem posição de estar, os quatro carregadores mais as munições extras parecem que pesam o dobro. A atenção

    devida e a disciplina tatica começam a baixar.Finalmente o fim do dia aparece e preparamo-nos para pernoitar. Foi um

    autentico alivio poder finalmente descansar. Com o avançar da noite, aparece o som das hienas e ouviamos perfeitamente

    o ruido dos motores das viaturas no aquartelamento de Mueda..

                Estamos no terceiro dia de mato, preparamos o pequeno almoço.Tenho que ter muito cuidado com a água, pois

    apenas tenho um cantil cheio. Aí vamos nós, novamente com  energias renovadas, preparando-nos para entrar no

    objectivo, uma base da Frelimo. Depois de uma caminhada em mata aberta, encontramos um trilho e caminhamos

    paralelamente a ele. É altura de uma pequena paragem para almoço.Aviso a minha secção que ainda faltavam dois

    dias para o regresso e que só teriamos água no pequeno riacho antes da zona das bananeiras.Nesta altura já haviam

    muitos cantis  com pouca água. O capitão da outra companhia, aliás o unico que foi nessa operação, quiz comprar

    um cantil ao meu camarada e amigo Marcelino, que prontamente recusou. O Marcelino foi, e continua, caçador e

    estava bastante habituado a controlar a água, inclusivamente era o único que todas as manhãs lavava os dentes, com

    escova e pasta, com a água do cantil. Hoje, nas nossas reuniões anuais falamos deste assunto.

                Depois do almoço rápido continuamos o nosso caminho paralelo ao trilho, quando aparece a DO do Major de

    operações a querer que nos posicionassemos na sua vertical. Logo de seguida ouvimos uma algazarra  "tropa ué,

    tropa ue" seguido de alguns disparos ao longe.Como era evidente, os Frelos viram o avião e logo pensaram que também

    havia tropa por perto.Não tivemos alternativa, mandámos umas morteiradas, a algazarra e os fogachos dos Frelos

    acabaram, tal como a operação. Não podiamos arriscar uma possivel emboscada antes de chegarmos á base deles.

                Novamente a caminhar, desta vez em direcção á mata serrada, com progressão á catanada, pois ali estávamos

    mais seguros. Pernoitamos por ali, não deu para fazer o circulo por causa do terreno, mas os grupos de combate

    agruparam-se mais..

                Novo dia, este já a pensar no quartel.Comunicou-se com Mueda o reencontro com o esquadrão de cavalaria,

    um pouco antes da ponte no sentido Nancatare / Mueda, já muito perto das águas.

                Quando saimos da mata para a picada, lá estava o esquadrão para nos levar , finalmente, para o quartel.

    Aqui chegados, por mim, passei, como era habito, pela messe para limpar o "pó" por dentro com uma cervejola

    fresca, seguindo-se um banho, Maconde ou não, e uma cama lavadinha.

                Passados quase 50 anos, há muitos pormenores que me vão escapando, no entanto o Vale de Miteda,

    as noites no mato, a progressão e as entradas nas bases, na grande generalidade ainda bem me recordo.São

    marcas que ficaram para sempre.Não falando nos  camaradas que por lá ficaram para sempre, pois essas são

    marcas bem vincadas ao pormenor que jamais esquecerão.


                                                                                Linda-a-Velha, Julho de 2016

                                                            José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

     
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