Nomadizações


                Em Junho de 1968 deixamos Mueda definitivamente para trás.Já tinham chegado os treze meses que

    por ali passámos. Não fomos mais cedo porque o comandante do batalhão não lhe agradou a localidade para

    onde lhe queriam enviar, esperando mais algum tempo por outra onde podesse andar á vontade.Todas as

    companhias do batalhão foram espalhadas por Moçambique, calhando-me a minha,  Vila Coutinho, no planalto de

    Angónia, distrito de Tete.

                Voltámos a fazer a picada Mueda/Mocimboa da Praia e aqui apanhámos o navio Império para a Beira, onde

    fizemos uma enorme , mas bela, viagem de comboio para Moatize, fim do caminho de ferro. Cruzámo-nos com

    camaradas que vinham em sentido contrário e que já tinham acabado o tempo de serviço.O seu contentamento era

    entusiasmante e perfeitamente compreensivo, o nosso também pois tinhamos saido de uma zona de guerra e estávamos

    à nossa espera uma zona calma, segundo nos tinham dito.

                Chegados ao quartel de Vila Coutinho, que ficava a cerca de kilómetro e meio do centro da vila, cada um foi para

    o lugar destinado. Os soldados ficaram por ali,
os oficiais numa vivenda nos limítrofres da vila, e os sargentos num

    anexo do hotel.

                Tudo  era novidade para nós, a população civil acolheu-nos bem e era constituida por cantineiros e

    machambeiros, havendo também quem fosse possuidor de muito gado.Era uma região agrícola muito rica, sendo

    conhecida pelo celeiro de Moçambique. Grande parte dos Furrieis, classe que melhor conheci, apenas ia ao quartel

    em dias de  serviço, os restante dias eram passados na vila, especialmente na pensão do Sr. Correia, onde

    nos primeiros meses eram servidas as refeições e cujo proprietário já passava algumas dificuldades financeiras.

               A Vila não tinha iluminação pública, por isso quando a noite chegava cada habitação recorria  ao seu gerador.

    Dos quatros pelotões que constituiam a companhia, apenas ficaram dois no aquartelamento, pois um foi para o Dómue

    e o outro para o Tsangano.Fui chamado ao quartel e encarregaram-me de, juntamento com a minha secção, de fazer

    uma nomadização para uma determinada zona, durante cerca de uma semana.

                Comecei por reunir o material necessário, mapa, bússola, rações de combate, roupa para passar a noite ao

    relento, água, muita água, e também muita gasolina, não esquecendo as G3 e munições. Reuni com os camaradas

    da secção explicando-lhes o que iamos fazer, realçando que já não estando em zona de guerra, teriamos que ter outra

    abordagem no contacto com a população.

                No dia seguinte , após o pequeno almoço, um unimog, seis camaradas da secção, um condutor, um

   
maqueiro/enfermeiro e um  radiotelegrafista saiem do quartel para, enfim, " descobrirem "  a África  

    - não direi em tempo de PAZ -  mas apenas  em tempo de não guerra.

                Contactámos com a população local, que sempre nos recebeu bem, conversámos com um cantineiro, que no meio

    do nada, ali se encontráva juntamente com a mulher,onde comemos a nossa primeira ração de combate da jornada e onde

    podemos comprar - um luxo naquelas bandas - umas cervejas refrescadas por um poço pertença do cantineiro. Continuamos

    a viagem e pela primeira vez vimos um boi cavalo que se escondeu na vegetação alta e o nosso unimog foi seguido por uma matilha

    de hienas.Não gostei deste animal, pois além de cheirar mal torna-se bastante  perigoso em matilha. O condutor

    acelerou o carro e assim podemos perde-las de vista.A noite aproximava-se e quando todos nós já pensávamos na

    " pensão todas as estrelas", lembrei-me de ver o mapa e reparei que perto - perto em África é no minimo cem kilómetros - havia

    uma missão de cariz religioso. Com o entusiasmo de todos, pusemo-nos a caminho convictos que , no minimo, dormiriamos

    debaixo de telha. Lembro-me perfeitamente desta situação, sentado ao  lado do condutor, a olhar para a frente e ver os farois

    a rasgarem o escuro da noite.

              Quando chegamos á missão, já era bastante noite,- a noite em àfrica cai bastante cedo -  pedi para falar com

    o responsável ( Será superior ?? ) que me recebe, bastante bem, cumprimentando-me a que também retribuo, convidando-nos

    para o jantar e para pernoitar. Aquilo foi melodia para os nossos ouvidos e começamos a trocar olhares de contentamento.

    Fomos lavar as mãos - um luxo - e entrámos no refeitório onde estavam alguns brancos e negros. Serviram-nos comida quente

    que nos soube bastante bem. Quando estava quase a terminar, aparece-me uma pessoa , que já tinha ouvido tratarem-no  por irmão,

    que me diz " Furriel tenho uma prenda para si " e apresenta-me uma fruta, que nunca tinha visto, a que chama pera abacate e

    ali mesmo descasca a fruta para uma tigela. De certeza que devo ter feito uma cara esquisita, pois o chamado irmão disse-me que

    o fruto era mesmo bom e que misturado com vinho do Porto seria ainda melhor.Gostei tanto, que ainda hoje quando como abacate

    faço uma papa com vinho do Porto e lembro-me sempre do tal irmão, que , infelizmente, não me lembro do nome. Tudo correu

    bem, no entanto chamei á atenção para terem cuidado com as expressões militares, não fazerem barulho e não jogarem a nada.

                Ainda nessa noite, pediram-me para ir ao gabinete do superior, acedi com naturalidade. Fez-me várias perguntas sobre

    o meu percurso militar, onde estáva estacionado. A tudo respondi com cordialidade e gosto e quando a conversa resvalou para

    a colonizaçao / descolonização, tive que dar a volta á conversa, pois não me sentia bem nessa área. Já sabia que havia várias

    missões religiosas , umas de um lado outras de outro  da politica. Todas elas ali estavam pela pela expansão da fé

    cristã, no entanto provocavam  sempre uma grande ajuda social.Esta, já não me lembro a que congregação religiosa pertencia, no

    entanto a sua acção social era bem notória. Dos vários conjuntos de edificios existentes, tinham maternidade, escolas, uma

    pequena enfermaria com alguns doentes e uma pequena sala de projecção de filmes.

             Ali pernoitamos sem ver as estrelas no  firmamento, mas com muitas estrelas no acolhimento e dedicação. Após o

    pequeno almoço e após os nosso agradecimento á comunidade missionária, ainda fui á procura do irmão que me tinha

    oferecido a pera abacate, que estava na machamba, para lhe agradecer e ainda o ouvi dizer um " Até á próxima ".

            De novo em cima do unimog, de novo isolados no meu do nada , foram, assim, passando os dias e as noite, algumas dela

    com  saudades da missão, da sua comida  de garfo e da dormida. Com a minha secção devemos ter feito duas nomadizações,

    mas voltamos á missão novamente.

            Já nos encontramos no último dia e temos que passar pela Casa Agrícola. Imensidão, mesmo para África, de terreno

    explorado e muito bem aproveitado, um sistema de rega muito bem organizado.Vimos frutos Mediterraneos, que há

    muito não viamos, tais como pessegueiros e morangueiros.Vimos pela primeira vez milicias armados, que pertenciam

    á machamba para a sua segurança.Foi-nos dado alguns jerricans de gasolina, que foi devolvida na próxima passagem.

    Chagámos ao quartel em Vila Coutinho, com relatório entregue na secretaria. Como experiência humana foi

    formidável, todos nós gostamos imenso.Voltámos ainda mais uma vez.

                                                                    Linda-a-aVelha, Abril de 2016

       
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