A Guerrilha

Moçambique - 1967 - 1969

Apontamentos - Nangade - Planalto Maconde - Cabo Delgado

A Guerrilha.

A guerra é a guerra. A nossa é uma guerrilha, dizem. Nangade é uma aldeia de Macondes. Uma centena de palhotas, antigas casas de colonos, que servem de casernas,ao longe o rio Rovuma e a Tanzânia. O cenário é este.E nós, cento e cinquenta putos.
O mais feliz é o Zé o Básico. Ensinaram-lhe a fazer pão, agora quando falamos com ele,é tratado por Zé-Padeiro.No terceiro pelotão temos o sonâmbulo, no quarto pelotão o surdo, e no primeiro pelotão o gagueja, não gagueja sempre, só quando se enerva.

Hoje,escondemos a corneta do corneteiro, que no mato, não tem qualquer serventia.O gajo toca tão mal, que nem são necessárias balas para afugentar os "turras", basta o corneteiro tocar e desandam todos.

Hoje, não há nada para fazer.Ontem, chegamos de mais uma coluna a Palma, mais uma.

Hoje, não vou escrever para ninguém. Há dois meses que não escrevo para a minha mãe, os selos para França são mais caros, e os Aerogramas são só para o continente. As más noticias chegam depressa.

Hoje,não jogamos nem à lerpa nem à sueca, temos dias assim, não nos apetece fazer nada. Um calor do caraças.A menina,quase nua, lá continua,por cima da cabeceira da cama do Xico alentejano.Uma página arrancada de uma revista brasileira.Ainda não fumamos nada,eu já não tenho, fumei toda em Palma, depois de seis ou sete bazucas(garrafa de cerveja).Estou a falar de "maconha."

Hoje,lavamos roupa, a roupa que utilizamos na coluna a Palma. Pó e mais pó,o medo em cada curva,ou a mina que nos espera.
Ouço ressonar, não um, nem dois. Isto não é ressonar, é roncar.
Na última cama, ao fundo da caserna, o Beja escreve.Temos mais moscas na caserna,até elas procuram o fresco.As moscas, os mosquitos, as baratas,as pulgas e os percevejos. Limpamos e voltamos a limpar, lavamos e continuamos a lavar. Não nos deixam.

Hoje, não sei que dia é. Não tem qualquer importância.Logo vejo quando me deitar, quando riscar mais um dia no calendário.Não vou escrever,não escrevo para ninguém.Vou dizer as mesmas merdas. Por cá,está tudo bem.Ainda não ouvi um tiro, não vi um "turra", as picadas são alcatroadas,de vez em quando vamos lanchar para o outro lado do arame farpado, a comida é excelente.Porra, há oito dias que andamos a comer arroz com salsichas e feijão com massa.
Sim, oito dias. Querem que eu vos conte estas merdas? Querem saber que o João tem paludismo? Que o Carlos apanhou "matacanha" nas unhas dos pés? Que o Mário anda com uma infecção urinária, há mais de duas semanas? Querem saber que morremos de medo? Querem noticias, não é? Vou repetir, não escrevo para ninguém, nem para ti.
O Beja acabou de escrever,passou os lábios pela cola do envelope e fechou a carta.Quantas mentiras, vão seguir na próxima avioneta que virá a Nangade, para trazer e levar correio. Trás esperanças e leva mentiras,as nossas.
- Beja, tens "maconha?"
- Não muita, mas chega para os dois.

Hoje, é o antes de amanhã. Não sabemos se haverá.

Nangade - Abril de 1968.

Os nomes são fictícios, os factos reais.



   
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