Tete

Abril de 1969. Deixaram Moatize e foram para Tete.Foi só atravessar o rio, o grande Zambeze. A comissão aproximava-se do final, mas esta deslocação deixava alguma preocupação em todos eles.Não percebiam o porquê, e o "Becas", nada lhes tinha dito, mas notaram a contrariedade que o Capitão demonstrou ao saber que iam para Tete.A guerrilha intensificava-se em todos os distritos,e o distrito de Tete começou a ser fustigado por emboscadas, e as picadas passaram de seguras a muito inseguras. Tinha começado a minagem das principais picadas, ao mesmo tempo que tinham começado as obras da barragem de Cabora Bassa.Faltavam quatro meses, só quatro meses. Esperavam não serem chamados, para mais nenhuma intervenção contra a guerrilha. A guerra deles estava feita, terminada.Faltavam só quatro meses.Tete "O cemitério dos brancos", devido à grande diferença entre as temperaturas diurnas e nocturnas. A outra grande mudança foi a do quartel, agora já não estavam sós, o quartel era enorme, assim como o número de companhias e de militares.A cantina parecia a Gare de Alcântara, em dia de grande movimento.Mas era uma cidade, e tinha tudo ou quase tudo, restaurantes,cinema,cafés,vida nocturna, e muitas mulheres. Mulheres de todas as cores e formas, brancas,negras,mulatas,chinesas,bonitas, feias. gordas,magras, altas, baixas. Mulheres e mais mulheres. O "Becas" sabia a cartilha toda, e avisou-nos.
- Não vou repetir tudo aquilo que já vos disse ao longo destes vinte meses, mas terei que vos dar mais alguns conselhos, e impor algumas regras, as quais serão respeitadas, e que têm a ver com esta nova situação. Estamos numa grande cidade, que nada tem a ver com a situação anterior. Assim, volto a repetir que não quero bebedeiras, também não vou pedir que só bebam água ou Coca Cola, mas bebam com moderação. Não vou admitir que apareçam na enfermaria com doenças venéreas, tenham cuidado. A partir de amanhã, todos aqueles que tiverem relações sexuais, terão que passar pela enfermaria e pedirem os respectivos desinfectantes, e ao mesmo tempo assinarem a folha criada para este efeito.
Desta maneira quem fosse apanhado, com alguma doença venérea, e o nome não estivesse na lista da enfermaria, estava lixado.

A formatura de saída, era logo após o jantar. Nos primeiros dias e enquanto o dinheiro durou, saíram todas as noites. Desciam a avenida principal até à zona do Quartel General, onde estavam situados o Cinema e o Café Dominó.. Sentavam-se na esplanada, fardados, ninguém lhes passava cartão. De vez em quando sentiam um olhar furtivo, não tinham divisas, eram "rasos". "Rasos" como o chão, assim dizia o Carromeu. Eu sou aquilo que sou, e ponto final. Bebiam, cerveja, aos poucos, o dinheiro não "dava" para tudo. O empregado que era negro,estava sempre a verificar se os copos estavam vazios. Todos os empregados eram negros.Nunca viram empregados de café, brancos.Empregado era sempre negro. Todos os patrões eram brancos. Nunca tinham visto tanto patrão branco, por quilómetro quadrado,. Os engraxadores eram negros,os pedreiros eram negros,os cozinheiros eram negros,os presos eram negros,os guerrilheiros eram negros,os que tinham fome,eram negros. os doentes eram negros, quem não tinha carro era negro,os interrogados pela Pide eram negros, quem não entrava na piscina era negro,quem dormia à porta do quartel esperando os restos de comida, era negro, a quem violavam a mulher era negro,a quem compravam a filha virgem, por um litro de azeite, era negro, quem apanhava porrada era negro, quem dormia na esteira era negro, quem ia à escola só para negro, era negro. Mas o negro sonhava, e o sonho estava quase a tornar-se realidade.


     
  Regressar ao José Nobre