Nunca Atirei Pedras Aos Cães.

Tete - Zambézia - Junho de 1969

Operação militar na zona de Cassacatiza, próximo da fronteira com a Rodésia.

Foto - Da esquerda para a direita - Marroquino (Zé-nobre) - Sousa (O Padre) - Carromeu - Zé de Espinho - Moreira.

( Parte 1 )

O que temiam aconteceu. A norte de Tete a situação agravou-se. Só faltavam três meses para terminarem a comissão. Teriam que "alinhar" em operações conjuntas com as forças militares rodesianas. Os quatro pelotões da companhia, alinhavam um de cada vez, assim comiam todos pela mesma medida. Todas as precauções iriam ser tomadas, para que não houvessem mais baixas, a tão pouco tempo do regresso.
Foram chamados para um operação de patrulhamento, numa região junto à fronteira com a Rodésia. As picadas minadas,aumentavam de dia para dia. Voltava tudo ao inicio, como em Cabo Delgado, a três meses do final da comissão. . O "Becas", avisou-os.
- Não tenham pressa para chegar ao destacamento. Assim que saírem da estrada principal, não quero ninguém em cima das viaturas. Desta vez vão quatro pelotões, um de cada companhia, do nosso batalhão.No local terão a companhia dos rodesianos, para uma operação que impedir as infiltrações de guerrilheiros, para a região de Cabora Bassa. Não há data, nem dia marcado para chegarem ao destacamento. São sessenta quilómetros de picada, por isso quero toda a gente a pé, sobretudo nos últimos trinta quilómetros.Os únicos que vão nas viaturas são os condutores, os outros"picam" a picada à procura de minas, devagar e com cuidado. Partem amanhã de manhã. Quero-os todos de volta.
No mínimo seriam dois dias para chegarem a Cassacatiza.Para chegarem a "Forte Vietnam", assim era conhecido o aldeamento, mas isso só o souberam depois de lá estar.
Nessa noite o Sousa juntou os condutores para rezarem, nem todos apareceram,preferiram sair e beber uns copos, talvez os últimos.. Levantaram-se cedo para as últimas verificações das viaturas, e partiram.Levaram rações de combate para oito dias. De inicio a viagem decorreu rápida, até entrarem na picada, até à entrada da picada para Cassacatiza.Pararam e toda a gente desceu das viaturas.Traziam paus com pregos nas pontas para "picarem" a picada à procura de minas.Fizeram os primeiros cinco quilómetros em quatro horas, continuaram até ao cair da noite.Outra vez o medo. O capim era alto. Tinham voltado ao estado de marionetas,vestidos de camuflado, e vazios.Não respiravam, os olhos fixados nos três companheiros que iam picando à frente da viatura. O rodado da viatura que seguia na frente era seguido ao milímetro pelo rodado da viatura que vinha logo atrás.Suavam de calor e medo, calados, ouvia-se perfeitamente o barulho dos pneus na areia da picada.Quando tinham dúvidas, paravam, chamavam o Furriel das minas e armadilhas, estendia-se na picada e com um pau verificava a zona duvidosa.Não era nada.Continuavam. O maior problema eram as minas com o sistema "retardador", passava a primeira viatura, passava a segunda e só rebentava à terceira. Bum.....ficava um enorme buraco, a viatura partia em todos os sentidos, aos pedaços.O Sousa tinha colado, junto ao conta quilómetros do Unimog, uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, enquanto conduzia ia rezando mentalmente, e de vez em quando tocava com os dedos na imagem. Ainda existe, algures num sitio qualquer perdido de Moçambique, um pedaço do tablier de um Unimog, com a Virgem de Fátima colada. Ninguém teria coragem de descolar a imagem do Unimog do Sousa.
Rasgaram os plásticos das caixas da ração de combate, sentaram-se à sombra de um cajueiro. beberam a água do cantil que tinha um sabor estranho, e começaram a trocar entre eles,as latas de conserva da ração.Falavam só o essencial. O pó cobria-lhes todo o corpo, as mãos sujas, partiam com cuidado as bolachas de água e sal, tal como os padres fazem com as hóstias durante a missa.Os sabores eram sempre os mesmos, pelo menos isso não mudava. As melhores conservas eram as de sardinha. Descansaram um pouco e partiram, ainda faltavam muitos quilómetros de picada.
Chegaram ao destacamento, depois de dois dias e meio de picada. Já lá estavam os "Helis", para transportarem a malta para a zona da operação.
Os condutores ficariam no aquartelamento, esperando os camaradas que tinham intervenção directa na operação.

A pergunta era sempre a mesma,quando chegávamos a um aquartelamento pela primeira vez. Está aí algum algarvio?Está aí algum gajo de Portimão.Neste, haviam vários algarvios e um de Portimão. Era o José Henrique, ou seja o Zé-Henrique mais conhecido pelo "Papinha".Foi no dia 16 de Junho de 1969, que reencontrei o "Papinha". Grande abraço.
Olhou-me, Zé-Nobre, estás num estado que eu quase não te reconheci. Como é possível vocês virem para aqui, a três meses de acabar a comissão.Já destes uma volta para veres como a gente vive?Não temos casernas, vivemos dentro de buracos cobertos com sacos de areia, assim as bazucadas e as morteiradas, fazem menos estragos.Isto piorou desde que começaram a construir Cabora Bassa, as infiltrações de guerrilheiros, vindos da Zâmbia aumentaram a olhos vistos, isto transformou-se num inferno, sem a ajuda da força aérea da Rodésia, não sairíamos daqui, nem para mijar fora do arame farpado.


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