Moçambique - 1967 1969.

( Para todos aqueles que viveram comigo, os bons e maus momentos de uma guerra....que nunca quisemos, sobretudo para o Guerra, o Amável, o Bibiu e o Camilo Alves, mais conhecido por Braga. )

Respiramos o Pó das Picadas.

Não somos, nem negros, nem brancos. Somos a tropa.
Sentimos o perfume da morte. Esquecíamos o tempo, os dias iguais, a distância e as saudades. Com o tempo esquecemos tudo, mesmo aqueles, aquelas, por quem daríamos a vida. Com o tempo tudo passa. Andamos por camas do acaso, apertamos corpos sob a luz de uma vela. Vivemos. Maquilhamos os sentimento,como palhaços de um circo, voltamos ao “era uma vez.” Com o tempo tudo passa. Bebemos, tentamos apagar da memória, o ontem, acreditamos que o dia seguinte será melhor. De noite ouvíamos o mar e por vezes víamos sereias. Atirávamos pedras nos lagos da nossa juventude, círculos perfeitos, um após outro, pedra após pedra. Para nós não existia qualquer diferença entre o relâmpago e o trovão. Lembro-me daquela noite fria, estrelada, no rádio do Carapinha, sintonizado numa emissora da África do Sul, a Janis Joplin, cantava Summertime. Perguntas-me em que ano foi. Queres que te diga o mês o dia e a hora. Junho de 1969, Sexta- Feira, dia 21, (madrugada de sábado) quatro horas da manhã, cidade de Tete, Moçambique. Tinha sido mais uma saída noturna, regressamos ao quartel, os cinco, como sempre, procuramos nos armários os restos de bebida nas diversas garrafas e fomos para o alpendre das viaturas. Quem eram os cinco? Eu, o Nelson, o Augusto, o Carapinha e o Carromeu. Nessa noite não fomos ao Café Dominó, preferimos uma das tascas da cidade de Tete, onde se bebia whisky da África do Sul, em copos de vinho e ao preço de uma gasosa. Falamos do regresso, do que faríamos, daqueles que nos aguardavam esperando que ainda fossemos os mesmos. Não, não éramos os mesmos, a guerra transformou-nos.
- Quem é a gaja que está a cantar?
- É a Janis Joplin.
Não nos deitamos. Fomos diretamente para o pequeno-almoço, ao primeiro turno. Era bem a primeira vez que éramos os primeiros na primeira refeição do dia. Só bebemos o café, o pão foi guardado para o petisco que já estava marcado para a hora do almoço. Cinco frangos assados no espeto e carregados de piripiri. Regressamos à caserna e tínhamos a certeza absoluta que mais um dia tinha sido riscado no calendário. Só faltavam mais dois meses e seria o regresso, tentava imaginar a nossa chegada. Lisboa estava já ali, o navio a passar sob a ponte, o bater do casco contra o caís de Alcântara, o descer das escadas e o primeiro abraço. Não era obrigatório ir ao refeitório, cada um fazia aquilo que muito bem entendia, a única obrigação eram os horários e a formatura para verificar se não faltava ninguém, se alguém se tinha “passado” para o lado do inimigo. A tropa é a tropa, um, dois, esquerda, direita… siga o baile.
Não, não me esqueci de nada, ou quase. 

Moçambique – 1967 – 1969.