Não me mintas mais

                   Enquanto estive em Moçambique, no serviço militar, sempre escrevi aos meus Pais regularmente,

        que sabiam onde  eu estava e a  importância dada a Mueda no contexto da guerra.

                    Quase todas as semanas recebia carta da minha Mãe ou do meu Pai, que era imediatamente respondida,

        salvo quando me encontrava fora do quartel em operações militares ou deslocado.

                     As cartas da minha Mãe eram as preocupações com a alimentação e o clima e contava os acontecimentos

        passados com a família e os meu amigos, já o meu Pai se preocupava mais com a guerra pois sabia que ela se

        localizava a Norte, onde eu estava. Nas minhas cartas sempre suavizei a envolvência sobre a guerra para não os preocupar.

                    Mais ou menos a meio da comissão em Mueda, apareceu o Nuno Rocha, jornalista do Diário Popular, para  fazer

        uma reportagem sobre a guerra. Que me lembre nunca acompanhou tropas no mato. Entrevistou alguns pelotões sempre

         no regresso de operações e também entrevistou uma companhia de tropas especiais que por ali estavam sempre em

         permanência, quer comandos, quer paraquedistas.

                    O meu Pai sempre foi leitor do Diário de Noticias, foi uma das suas infuências em mim. As noticias, à época,
           
        eram filtradas pela Censura Prévia, saindo muito pouca informação sobre a guerra que se passava nas antigas Provincias

        Ultramarinas e as que saiam eram para comunicar que as forças armadas estavam a ganhar a guerra.

                    Nunca relacionei o trabalho do jornalista com a eventualidade do meu Pai vir a lêr, o que seria normal, pois

        mesmo não sendo o jornal por ele lido, provavelmente algum amigo viria a dar-lhe conhecimento, e foi precisamente

        isso que aconteceu.

                    Recebo uma carta do meu Pai em que a meio me diz :

        - 
Não me mintas mais   porque me deram a ler um texto de um jornalista do Diário Popular em que fala muito

            da guerra que se passa em Mueda.
           
        
  Fiquei um pouco pensativo, ali estava eu aos 23 anos e a cerca de 11.000 kilómetros de distância a levar o róitulo de aldrabão.

                            As cartas passaram a ser menos  açucaradas, não menti mais, mas omiti muito e, principalmente, não houve

        mais visitas de jornalistas até sair de Mueda.

                            Sai de Mueda em Junho de 1968 com destino a Vila Coutinho no Distrito de Tete. Como sabia que levaria algum

        tempo na viajem, comuniquei aos meu Pais o  novo local e que iria levar mais que uma semana na deslocação.

                            Já em Vila Coutinho continuamos a trocar cartas e voltei a descrever, desta vez com verdade, a situação

        do novo local. Como nunca recebi mais nenhuma " reprimenda " do meu Pai, pensei que provavelmente se informou

        sobre a ausência de guerra em Tete, nessa época.


                                             Linda-a-Velha, Dezembro de 2018


     
Regressar ao Cantinho do Monteiro