6 de Setembro de 1967

    Cheguei a Mueda em Maio de 1967, já tinha feito algumas patrulhas e operações, mas ainda era muito novato

    nestas andanças, ou como diziam na giria militar CHECA.

        Mueda era um forte reduto militar e muitos quarteis da redondeza aqui vinham, quer para reabastecer alimentos,

    combustiveis ou até mesmo para passarem pelo PAD para deixarem viatura e levantarem outras.

        Os velhos, coquanas, de Mocimboa do Rovuma, já há muito que não vinham a Mueda reabastecer, pois estavam

    quase a mudarem-se e não queriam arriscar aquela picada bastante perigosa.

        No inicio de Setembro, do mesmo ano, o meu pelotão foi destacado para fazer uma sobreposição em Mocimboa

    do Rovuma, os coquanas iam-se embora e nós gtinhamos que ficar  à espera da chegado dos checas.

        Como sempre foi habito, a coluna forma-se em frente do quartel, com protecção pelo esquadrão de cavalaria 2.

    Com todos em cima das viaturas, lá fomos nós logo a seguir à ordem dada pelo responsável da coluna, um oficial

    do esquadrão. Passado o Santos viramos à esquerda e enfrentamos a picada. Mocimboa do Rovuma não era muito

    longe, penso que o máximo seria de 50 quilómetros mas foi muito demorado porque encontrámos muitos fornilhos

    e percorremos sempre com muita cautela. Finalmente chegamos ao quartel. O perimetro era todo percorrido por valas.

    e tinha alguns edificios, poucos.  A comida era o habitual em tais circunstancias, atum, feijão e arroz e alguns legumes

    liofilizados, como levamos rações de combate iamos misturando.

        Saiem os coquanas,  escoltados pelo esquadrão de cavalaria,  e ficamos sózinhos no quartel que ficava numa pequena

    elevação, sobranceira ao rio Rovuma, que se via ao longe juntamente com a fronteira para a Tanzania.

        Os chequinhas, ainda mais checas que nós, finalmente chegaram e preparamos o regresso ao nosso cantinho de Mueda.

        No dia 6 de Setembro de 1967, preparamos a coluna, juntamente com o esquadrão que trouxe os checas. O meu Unimog é

    o último da coluna, antecedendo o granadeiro. Ainda dá tempo para uma última fotografia, com o rio Rovuma por trás. Já

    estou sentado no meu lugar habitual, ao lado do condutor, quando um soldado de cavalaria me diz que é o condutor do

    granadeiro e diz que tem os travões do carro a funcionar muito mal. Disse-lhe que se mantivesse bem  junto a nós e que

    se acontecesse alguma coisa para chocar com o granadeiro contra a traseira do nosso Unimog e nunca o desviar para o
       
    o mato, pois poderia apanhar algum camarada nosso.

        Já rolamos na picada e tenho a G3 em cima das pernas, virada para o mato. Cerca de 15/20  minutos depois ouve-se um

    forte tiroteio e salto imediatamente para o mato, ouvindo, ainda, o barulho do embate do Granadeiro na nossa viatura.

    Apercebo-me que os tiros vêm do lado esquerdo, e sempre colado ao chão vou para o outro extremo da picada. Fiquei

    mesmo no limite da chamada zona de morte. Caem alguns ramos em cima de mim, cortados pelas balas. O coração

    quase que salta da caixa. Sempre com a G3 em posição de tiro a tiro, despejo um, dois, três carregadores na direcção

    do capim. Há um ligeiro interregno nos disparos de parte a parte. Ninguém se levanta e logo depois recomeça o

    tiroteio para finalmente acabar. A Fox, com o seu poder de fogo, foi a grande responsável pela emboscada não demorar

    muito mais tempo. Levanto-me e começo a percorrer a coluna perguntando se houve algum problema. Um camarada

    da minha secção disse-me para subir para a Berliet. Subi, com a facilidades dos meus 22 aninhos, e deparo-me com o

    Vilas Boas, camarada da minha secção, estendido e com um pequeno orificio na zona do pescoço. Senti ódio, senti
   
    revolta.

            Foi a nossa primeira baixa. Continua no cemitério de Mueda, pois a família não tinha posses para pagar

    o seu retorno à Pátria.

Regressar ao Cantinho do Monteiro