MOÇAMBIQUE


MUEDA 1967/1968

1º. A chegada

O ataque do grupo de guerrilheiros da Frelimo em 25/09/1964, ao posto do Chai, no Distrito de Cabo Delgado, marca a data oficial do inicio da luta armada em Moçambique, contra a ocupação Portuguesa.

A resposta das forças portuguesas a esta situação foi idêntica à que haviam experimentado em Angola e na Guine.

O dispositivo militar na zona de Cabo Delgado centrou-se em MUEDA, capital tradicional dos Macondes, ponto de convergência de todas as grandes vias de comunicação que liga o planalto ao mar, vinda de M. da Praia; a norte para Tanzânia, através de Mocimboa do Rovuma; ao sul em direcção a Nancatari, Montepuez e a Pemba (Porto Amélia); e ao interior do planalto, para Nangololo, Muidumbe e Miteda.

Os elementos antes citados são para situarmos os acontecimentos, servem de referência a quem nunca lá tenha estado. Mueda situava-se bem no centro do planalto dos macondes e desde o inicio das hostilidades, o principal centro operacional de combate à guerrilha no território Moçambicano o mais perigoso de entre todos.

Quando chegamos a Mueda em 10 de Maio de 1967, vindos de Mocimboa da Praia, somos instalados no quartel de destino, cujo edifício principal albergava o Comando, vários serviços administrativos, de saúde, outros serviços e segurança. Possuía duas casernas, no exterior bunker de protecção pessoal, separadas pela parada, um refeitório, cozinha e depósitos dos géneros alimentícios. Nas traseiras de uma das casernas funcionavam as oficinas de mecânica auto, serralharia e padaria. As instalações para oficiais e sargentos situavam-se à entrada do quartel, à sua esquerda, num edifício em alvenaria, com nome pomposo em inglês, flat.


                                                   

2º.- a segurança

A segurança da Unidade estava confiada aos militares nas 24 horas do dia, guarneciam armados os 4 postos de vigia colocados nos vértices do perímetro, porta de armas e sentinelas. Circundava todo o perímetro interior do quartel várias trincheiras e pequenos bunkers. Faziam parte também do mesmo esquema de segurança em permanente alerta, unidades equipadas com morteiros e obuses que periodicamente faziam fogo para o exterior para objectivos preestabelecidos. Outras das competências confiadas ao nosso Batalhão era defender e garantir a defesa da Unidade assim como toda a zona militar envolvente; o combate à guerrilha através de operações militares, e apoiar e proteger o deslocamento de viaturas em coluna, mantendo as vias livres à circulação para possibilitar o apoio logístico às varias Unidades. Em todas elas o Batalhão e os seus homens honraram o seu compromisso…

Para além do BCaç.1916, com a CCS e a Compª. 1710, várias unidades mais pequenas estavam sediadas no nosso quartel, outras distribuídas por vários pontos de Mueda que faziam dela na maior Base Militar em Moçambique, cito algumas: Pelotão de cães de guerra, Pára-quedistas; Unidade Hospitalar; Comandos; Engenharia; Base Aérea; Esquadrão de Cavalaria; Esquadrão de Reconhecimento nº. 3; Grupo de Artª. De Campanha e Pelotão A/D.

Muito dificilmente Mueda cairia nas mãos da Frelimo, quer pela quantidade e qualidade humana dos seus militares, bem como pela capacidade militar que possuía. A Frelimo não tinha nem possuía capacidade militar para tomar de assalto esta praça-forte… razões para que nunca o tenha tentado fazer. Mas, Mueda sofreu alguns ataques por armas de fogo curvo de (morteiro), disparando de rajada para rapidamente abandonar os locais para não virem a ser referenciados. No fundo era o dá e foge. Nunca os guerrilheiros se aventuram em fazê-lo através do assalto ou de tiro directo ou por exemplo (bazuca).

3º.- a burlisse

Depois da confusão inicial do primeiro dia, sou instalado na flat 2 com mais sete companheiros. Depois de uma noite de repouso num sono bem merecido, levanto-me e apresento-me no Deposito de Géneros, a fim de assumir a posse das suas instalações e dos produtos armazenados. O Furriel (?) Vague mestre, anterior responsável, inicia ao processo de inventariação dos produtos existentes por espécie, aceitando eu como certa e valida a relação dos produtos que passam à minha guarda. Passados os primeiros 30 dias, procedo a novo inventario das existências e qual é o meu espanto quando dou por um buraco enorme no arroz e azeite. Falando comigo mesmo, pensei… fui levado… que ingénuo. Seguidamente levo as mãos à cabeça, barafusto com quem me enganou. O coração palpita tanto que não cabe no interior da caixa torácica, de imediato dirijo-me aos serviços administrativos, não sabendo bem o que fazer ou com quem falar. Entro na repartição muito atrapalhado, como explicar as razões do trama? Quando dou por mim estou a relatar o sucedido ao Alferes Simões…ouve tudo com muita calma, uma sua característica, a minha explicação para o sucedido, vira-se e diz-me: - Ribeiro tenha calma pá, nós vamos resolver em conjunto rapidamente a situação. Vou ajuda-lo a resolver o problema pá. Durante os próximos dois meses vamos corrigir e por as existências em ordem, disse. Palavras santas, emocionalmente a paz voltou ao meu coração e, assim foi, passados 60 dias as existências estavam todas normalizadas. Só com ajuda desinteressada, mas empenhada do Alferes Simões, conseguisse ultrapassar o grave problema. A minha inexperiência de “xekinha” foi a causa de tal burlisse… o que não desculpa o “burlão”… esta má experiencia serviu de exemplo futuro, ali mesmo fiz um pacto comigo: - jamais serei enganado e a palavra se cumpriu. 

                                                                                
 4º.- o aldeamento

Muito perto do quartel existia um aldeamento de alguma dimensão no qual viviam largas centenas de autóctones, na sua maioria de origem maconde. Povo de artistas e de mãos sabias. Local de visita obrigatória, onde podíamos admirar as suas belezas…naturais, o batuque e, se possível adquirir algum frango cafreal e uns ovos. Coisa rara e difícil de obter por estas bandas. Os homens dedicam-se ao artesanato, à dança, serventes e pouco mais. As mulheres vestidas com capulanas vistosas, de cesto à cabeça e filho as costas eram o centro da vida no aldeamento. Admirava a sua valentia e coragem pelas responsabilidades nos trabalhos domésticos, no afecto aos filhos e nos cuidados como amanhavam a machanva, fonte alimentar das suas subsistências…

                                                                    

                                                           A minha Homenagem à memória do saudoso amigo e companheiro.

5º.- o social

 

Passado algum tempo Mueda passou a ser o nosso “mundo”, o espaço físico por onde nos movíamos de quartel em quartel, de caserna em caserna, de visitas periódicas à Base Aérea, para beber a cervejinha fresquinha, ver chegar e partir aviões militares, num passatempo que leva a mente para bem longe dali… o percurso entre o quartel e a base deveriam distar uns 2/3km. Foi nesta picada que pela primeira vez segurei num guiador, ao conduzir um Unimog, que o amigo Furriel Andrade, me impôs e meteu nas mãos. Que loucura e audácia ao pegar naquela máquina infernal, que deslizava a alta velocidade, cujas rodas rodavam encaixadas nas entranhas dos socalcos da picada, era como existissem carris. Pela primeira vez perdi o medo e dei azo à libertinagem irresponsável. Como sempre…tudo correu bem. Digamos que a partir daí foi geralmente sempre assim…

Nem tudo era guerra, procurava-mos levar uma vida normal dentro dos condicionalismos impostos, o jogo de cartas passaram a reinar e desde a sueca passando pelo king, lerpa e o 7/5 vieram para ficar e transformar-se em obsessão continuada. Os copos e uma boa patuscada, acompanhados por um fadinho, preenchiam também esse tempo. A prática desportiva passou a fazer parte da nossa vida e mais concretamente o futebol. Várias equipas foram criadas que jogavam entre si. Os jogos eram realizados durante o dia. A experiencia dizia-nos que o “inimigo” não atacava entre as 09h da manhã e as 15h da tarde. A guerrilha gostava de atacar ao amanhecer/entardecer do dia. Sempre foi para mim uma incógnita esta estranha opção. Tiveram tantas e boas oportunidades não aproveitadas durante o dia. Eles lá saberão porquê…

Os fins-de-semana eram de tranquilidade militar quase certa, os guerrilheiros também teriam os seus fins-de-semana tranquilos, suponho. Aproveitávamos então para dar azo a certas extravagancias, como vestirmos a melhor farda, visitarmos o aldeamento falando com os seus habitantes, assistirmos as batucadas festivas, como passearmos pela estrada que corria entre os correios (fechados) e Torre de Água, por aqui praticávamos a nossa condução com o patrocínio do Furriel Andrade, contavam-se historias de vida, subíamos ao topo da Torre de Água, lá do cimo a vista panorâmica sobre o imenso e vasto vale de Miteda era fantástica, surreal até pela sua imensidão cheio de segredos ocultos, com uma linha de horizonte de um azul cintilante - transmitia-nos a sensação de podermos caminhar sobre as copas das árvores em tons e cores sem fim. A realidade era bem mais terrível e perigosa…neste imenso vale encontravam-se os militares da base Miteda.

Pela tardinha recolhíamos à flat 2, olhava-mos uns para outros e num encolher de ombros… o que fazer? Alguém sugere …canta Adolfo e, de voz forte e melodioso o Adolfo trauteia a cantiga do costume o ” fado do embuçado”, por algum tempo há o regresso à nostalgia…só ultrapassado por algum excesso de frescas cervejas numa boémia que termina pela noite dentro e nos conduz a outras paragens…

 

6º.- o ataque

 

Certo dia pela manhã, não me recordo da data, estava eu de cama e nu (sempre tratado com enlevo pelo amigo Furriel Enf.º. Eurico a um surto de micose entre pernas), estava um dia lindo com muito calor, de forma violenta e brutal ouvem-se rebentamentos de morteiros por todo o lado e alguns tiros, meio aturdido pelo inesperado do ataque, sou forçado a levantar-me, pego na G3 abro a porta e de arma em riste, coloco-me por detrás do muro de protecção fronteiro à flat e aguardo o que fazer. A resposta é dada através de vários disparos de obuses e de morteiros. Vejo soldados a correr em várias direcções, carros de combate saem pela porta de armas em direcção à base aérea, alguém grita… é do fundo da pista que a guerrilha atacou. Passados minutos, como o tempo debaixo de fogo é longo, o “inimigo” cala-se e abandona rapidamente o local. É o habitual. A pronta reacção é eficaz e incute-me confiança. Não dou um tiro. Regresso ao local de partida…quando dou por mim numa figura dantesca, nu de pernas abertas, arma na mão, entro, penduro-a à cabeceira da cama, deito-me… a normalidade regressa por mais algum tempo…

Felizmente nunca dei um tiro, outros deram por mim e muitos. A sorte de ter companheiros militares excelentes, audazes e valentes, contribuíram de sobremaneira para que eu e muitos outros tivéssemos passado por Mueda sem que sentisse-mos na carne os horrores da guerra. Sentimos sim outros horrores…o isolamento, a chegada constante de feridos e mortos ao hospital, os ataques ao quartel, as insuficiências alimentares e as saudades familiares, alias, comuns a todos nos…



                                           

7º.- o correio

Os momentos mais hilariantes eram vividos com a chegada do correio. Quando o avião “ DORNIER “ que o transportava chegava à Base, rapidamente a noticia se espalhava e, todos ansiavam que nos chegasse às mãos. O serviço postal era bastante eficiente e, passado algum tempo lá vinha a cartinha ou o aerograma. Pegava-se nela com certa religiosidade, com enlevo e muitos beijos. Cada um procurava o “seu” sítio de leitura, a sós, lendo e relendo, meditando nos seus, chorando muitas das vezes. Quem não chorou? Depois de passarem as emoções trocávamos muitas das notícias, falando da mulher, dos filhos e dos pais ou falando das namoradas e dos sonhos que deixamos para trás por realizar…eram momentos puros e lindos, ajudava a suavizar a dor da saudade. Este acto de partilha baseava-se numa mútua confiança de sinceridade sem limite…

                                                       

8º.- a saída p/mato

 

Havia sempre a noite antes de qualquer operação militar. As conversas giravam à volta de questões como: Para onde é? Por onde? O local? Quem comanda? Quem vai e quantos dias? Eram as perguntas rotineiras, de resposta comedida por questões de segurança. Sabíamos que partiam mas ficava-nos a dúvida, regressarão? A persistência desta incerteza percorria constantemente os nossos pensamentos. Os “operacionais” da flat 2, levantam-se bem cedo pela madrugada – inicia então o ritual guerreiro que provoca algum ruído que nos faz acordar: começam por vestir farda de combate, verificam se tudo esta no seu lugar, as granadas, munições, a arma…comenta o Monteiro para o Mateus, as rações são uma merda… pá, responde este - a culpa é do Ribeiro, pá, o gajo é sempre o mesmo, pá. O astuto do Ferreira sempre pronto p'ra luta, fala ao Pereira…ó pá vê se não te esqueces de nada e despacha-te, pá. No meio desta troca de mimos, o Eurico, não perde mais uma oportunidade e mesmo sonolento, atira… olhem o quinino, pá. O Adolfo, pelo meio dos dentes… ó Alves, não esqueças de levar o rádio… tende cautela, pá, este reage, okei, pá. Acordado pelo ruído, mas à espreita, leva o dorminhoco do Andrade a gritar para que o ouvissem bem…não se limpem ao meu toalhete, senão parto-vos os corn….pá. Nós os que não partimos, assistimos da cama a toda esta encenação real de olho meio aberto, até ao momento da separação, são horas de ir, dizem, o momento é de alguma tensão… deseja-mos que tudo corra bem, voltem como partiram, cá esperamos por vós. O tempo passa rapidamente, abre-se a porta, cabisbaixos vão para junto dos seus homens que os esperam lá fora. Algum tempo depois ouve-se o ruído dos motores a partir, partir… o sono regressa e toma conta dos nossos sonhos. São momentos muito fortes e dolorosos, ver os nossos AMIGOS prontos e dispostos a partir em direcção ao desconhecido, conhecendo como eles conhecem bem a realidade, dos terríveis malefícios da GUERRA. Só de Heróis…

Foi nesse pequeno espaço que muitas coisas aconteceram. Forjaram-se amizades que coabitaram com a bebida e o jogo ao longo das noites e do tempo. Aqui se chorou, riu e vomitou. Daqui partiu a ideia peregrina de me alistar, não medindo o alcance da decisão tomada, numa operação de assalto a uma base “inimiga”, ainda por cima com tropas comandos responsáveis pela operação. Militares da 1710 eram parte integrante do dispositivo atacante, no qual me incluía. No retorno só Deus sabe como cheguei às “águas” ponto de recolha e regresso a Mueda. A ajuda generosa do amigo Monteiro, no transporte da G3 foi valiosa. Depois deste acontecimento, passei a sentir um maior respeito e admiração pelo trabalho desenvolvido pelos meus camaradas militares, pelo empenho, pelo heroísmo e estoicidade que demonstravam no combate contra a guerrilha.

                                                                                                                                             

9º.- o “china”

Fui convidado pelo Sr., China, família de origem Paquistanesa, proprietário da casa “china” a visita-los. Na casa vivia o casal e suas duas filhas de olhos brilhantes, única família aqui residente, o isolamento era quase total… que coragem e que mistério…certo dia pela tarde, sou recebido pelo Sr. Pai, que me conduz a uma sala bastante ampla, um cheiro característico pairava no ar, as filhas estavam deslumbrantes com os seus saris tradicionais, sorriem e abanam a cabeça, a mãe mais distante, vestida tradicionalmente, cumprimentou-me com uma vénia, respondi aos seus gentis gestos. Sentei-me, iniciando a conversa por temas relativos à situação local, das dificuldades inerentes à sua permanência em Mueda, etç. É servido o chã, gostoso, feito à moda…tudo óptimo…até que o Sr., encontrava-se em chinelos, cruza a perna, leva um dos dedos da mão ao pé e toca a coçar, a falar e a coçar, nunca mais parava… o chã perdeu logo ali todo sabor e aroma oriental… agoniado peço para me retirar. Este facto foi motivo para declinar outros convites posteriores.

                                     

                                                   

10º.- Mocimboa da Praia

As idas a Mocimboa da Praia em coluna militar para reabastecimento logístico, muito perigosas, levava-me algumas vezes a este destino. Nesta localidade existia dois bairros populares, de um lado o Sporting e do outro o Benfica, ao meio ficava a vila. Quando ali chegava, refugiava-me rapidamente na Pensão Ribeiro. A primeira coisa a fazer era tomar um longo banho de chuveiro, coisa inexistente em Mueda, e de seguida para retemperar forças, atiro-me ao camarão cozido à maneira, acompanhado por uma valente dose de “tricofaite” muito fresquinho (mistura em partes iguais de vinho verde branco e sevenap). Era comer e beber pela noite dentro até cair pró lado. No dia seguinte, à hora do ao almoço rumava em direcção ao bairro do Sporting para tomar acento no restaurante do China “verdadeiro”, era ponto de encontro. O tipo cozinhava um arroz com coco de sabor excepcional acompanhado por pato assado no forno, divinal. Recordações de Mueda e das dificuldades, nenhumas. O pato, o picante e calor à mistura, exigiam uma dose reforçada de bebida fresca e, assim era por vezes até cair. O proprietário sabia que se bebia muito e para dar resposta fazia a mistura do precioso líquido em garrafões de 5 litros. Enquanto aqui estava, cerca de 3 dias, mais alguns amigos mantinha-mos a rotina, aproveitando ao máximo a praia e tirar a barriga de misérias. Foram bons momentos que aqui passei…

                                     

11º.- a logística

As insuficiências e dificuldades logísticas existentes reflectiam-se na qualidade e quantidade de produtos frescos fornecidos, que chegavam ao rancho (mesa). A falta de batata, legumes, peixe, ovos e carne eram crónicos. As refeições eram feitas à base do feijão, grão, chouriço, atum, salsichas, massas, arroz e liofilizados. Todos os dias se fazia comida para centenas de homens. As dificuldades eram enormes e difíceis de superar. Durante semanas seguidas as ementas pouco ou nada eram alteradas. Instalou-se a rotina. Muitos dos produtos utilizados continham certos bichinhos “gorgulho” companheiros do que se ponha no prato. A necessidade de comer assim nos obrigava. Os “ciclistas” o “matope” a massa com chouriço, eram pratos bem conhecidos de todos nós. Só de os ver até a fome desaparecia. Jurei a mim mesmo nunca mais comer feijão-frade “ciclistas” e massa com chouriço. Não havia alternativa e no dia seguinte a ementa pouco ou nada se alterava. Até para nosso desgosto o vinho azedava com muita frequência, deixava de haver vinho por largos períodos, passando a servir como vinagre. Nestas alturas regressava à flat, abria uma ração de combate, retirava de lá duas latinhas, uma de carne assada e outra de atum, misturava com um pouco de cebola, se houvesse, e comia. Esta era uma prática muito comum entre os militares. Era uma das formas de nos enganarmos a nos próprios…

Os frescos representavam para nós um oásis. Quando chegavam rapidamente tinham que ser consumidos. A falta de uma rede de frio capaz obrigava ao seu consumo quase imediato, existiam uns pequenos frigoríficos e nada mais. Enquanto houvesse frescos teriam que ser utilizados na confecção do rancho ate terminarem. Depois voltávamos ao inicio da situação. Como bom amigo dos meus amigos, sempre que havia frescos, procurava separar um pacotão de carne congelada, umas cebolas, batatas e alhos, muitos outros beneficiaram por esta via. Eram então guardados religiosamente em local muito seguro. A malta da flat 2, essa estava sempre presente nas patuscadas. Enquanto os bens duravam, organizavam-se umas jantaradas com bifes enormes com cebolada e batata cozida, regados com imensa cerveja. Estes encontros davam azo a perder o controlo, só pela madrugada regressávamos à cama. Estas reuniões de amigos eram levadas a cabo na oficina auto e tinham o beneplácito e a presença também do pessoal da mecânica.

                                                                                                                       

 

12º.- o dente

A ausência prolongada de produtos frescos nas refeições dos militares, leva-me a tomar uma decisão arriscada que me poderia ter custado muito caro. Encontrava-se no aquartelamento de Nancatari uma coluna composta de várias dezenas de camiões civis provenientes da “Casa Agrícola” carregados de batata para serem entregues nas nossas instalações em Mueda. Os ataques e as minas obrigaram a coluna a reter-se aí e aguardar por decisões. O proprietário era um tal Rodrigues do Nairoto, que negociava directamente com a tropa o fornecimento de batata e legumes. Encontrava-se há muitos dias estacionada, na suposta parada, com a batata ensacada, exposta ao sol e calor, causas suficientes no processo de decomposição, que aumentaria rapidamente se não fosse urgentemente transportada e consumida. Começaram então as pressões, do tal Rodrigues, no sentido do Comando em Mueda organizar uma coluna em Mueda para se proceder ao transbordo e transporte da batata. Rapidamente e em força foi organizada uma coluna composta de vários camiões, com a protecção do Esquadrão de Cavalaria sediado em Mueda, cujo comando estava confiado ao Tenente Salgueiro Maia e a dois pelotões do meu Batalhão. A picada a percorrer era muito perigosa, no seu trajecto havia um local lendário, pelos piores motivos, conhecido pelas “ bananeiras”, um percurso com mato muito fechado, tortuoso e com alguns riachos no tempo das moções. Em suma muito arriscado e perigoso. Colocado perante o dilema de ir ou não, aceito o desafio e comunico a minha vontade de me deslocar a Nancatari. É aceite, escolho a viatura uma Berliet e com a ajuda do condutor, reforça-mos com mais sacos de areia, na tentativa de maior protecção pessoal e assim amenizar qualquer dissabor. A minha missão era avaliar o produto carrega-lo e traze-lo para Mueda. Fui isso que eu fiz. No dia seguinte pela madrugada partimos. Após algumas horas de marcha somos sujeitos a uma emboscada, com tiros e rebentamentos, salto da viatura e posiciono-me por debaixo da viatura mas por detrás da roda traseira. Não dei um tiro. Passado algum tempo à ordem para nos pormos em marcha. O “inimigo” consegui minar a viatura dianteira, sendo necessário reboca-la até Mueda. Nada mais aconteceu felizmente. Para além do dever militar de que estava imbuído, havia um motivo pessoal, contactar fisicamente com o tal Rodrigues a fim de me entregar o dente de Elefante prometido tempos atrás. Quando confronto o Sr., pergunto pelo dente que oferecia, responde dizendo… olhe Ribeiro - o dente, entreguei-o em Mueda ao Furriel Rasca para lho entregar (sic), okei e pensei… quando voltar lá terei o dente à minha espera…ainda hoje continuo a esperar pelo dente…

O pior vem a seguir, chego a Mueda com o carregamento, o cheiro que exala a batata espalhou-se por todo o lado. Rapidamente encaminho as viaturas para junto da cozinha e procede-se à sua descarga. São abertos as centenas de sacos, separam-se as boas das restantes e o que resta da pilha é o suficiente para uma refeição de batata. As quantidades de batata adulterada leva-me o tomar consciência naquele momento do elevado risco assumido. A decisão que tomei em trazer a batata, suportava-se no único objectivo, dada a sua escassez, oferecer aos militares uma refeição de um produto fresco que há muito não comiam. Corri esse risco…e.

Ao fim da tarde o Comandante, Coronel (?), chama-me ao seu gabinete, bato à porta e num tom ríspido dá ordem de entrada. Apresento-me em sentido, coloco-me em frente à secretaria, todo eu tremia e, numa voz forte e contundente e à queima, dispara…o nosso Furriel tem a noção da gravidade ou sabe o que fez? Será responsabilizado cabalmente por isso! Tremo como vara verde… cá de dentro e meio engasgado sai algo semelhante a isto… meu Comandante, ele para e ouve, entre continuar com a alimentação que conhece, deixando lá a batata, ou no mínimo possibilitar uma refeição com um produto fresco, optei pelo segundo opção mesmo que isso me traga sérios riscos…O Comandante olha-me profundamente e sem qualquer contemplação, utiliza um tom de voz forte para me correr dali e aponta…ponha-se lá fora. Saí completamente arrasado, estou tramado, pensei. Quando chego à flat conto o sucedido, todos fazem os seus comentários, transmitem o seu apoio, mas não chega para me tranquilizar, estou fod….pensei. Passei uma noite horrível, pudera. No dia seguinte, fiz a minha vida normal aguardando por algo, esperei, esperei, os dias entretanto passam e nada. Felizmente para mim, o Comandante deve ter apreciado o argumento, considerando a minha opção como uma decisão acertada no contexto, não me punindo. Depois desta “história” varias vezes cruzamos saudando-o, nunca me hostilizou, penso até que no seu intimo simpatizava comigo. Todos sabem, sai de Mueda a 15 de Junho de 1968, no dia em que todos o fizeram, limpo como todos com destino a Vila Coutinho.

                                                                                                                                                                            Até breve…

                                                                                                                                                                            Viana do Castelo, 13 de Junho de 2009

                                                                                                                                                                             Francisco Dias Ribeiro

                                                                                                                                                                             Ex Furriel Miliciano

                                                                                                                                                                             Em Moçambique

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