Escola Prática de Infantaria, Mafra, Julho a Novembro de 1966.



                        Terminada a recruta e a especialidade em Tavira, com uma média de curso muito baixa,

        fui enviado para Mafra, nos arredores de Lisboa. O quartel, localizado na traseira do imponente

       convento, era constituido por vários andares, onde tudo era grande, corredores e salas, mas também

        muito frio e umido.
Como adjunto de um oficial do quadro, fui dar recruta

        a cadetes do Curso de Oficiais Milicianos, integrando um pelotão dos vários existentes. Por acordo, os

        serviços de sargento de dia, ocupavam todo o fim de semana,  permitindo assim mais  tempo

        para irmos a casa.

                        Numa sexta-feira, já depois da instrução, e sabendo que o fim de semana  era feito por mim,

        fui abordado por um cadete, que seria de outro pelotão, pois não o conhecia, pedindo-me o favor

        de o " desenrascar ", pois, segundo ele, precisava de ir a Lisboa dar umas consultas para arranjar

        dinheiro, e que estava com o fim de semana cortado por ter tido negativa. Deu-me um cartão de visita

        para a mão, onde constava o nome e número de telefone. Apenas  lhe disse que se houvesse bronca eu

        não sabia de nada.

                    No dia seguinte, Sábado, ao render da guarda aparece um capitão, que tinha vindo da Guiné e

        que já tinha tido um pequeno problema com ele, e que era conhecido por " Capitão américa " por fazer

        a chamada de recolher á Americana. Imediatamente me lembrei do cadete que tinha ido a Lisboa e cerca

        da hora do almoço fui á minha secretaria e liguei para o número do cartão de visita.

        - O José António está??????

        - O menino não está em casa, está a dar consultas, sou a empregada. Fiquei surpreendido com a resposta e fiz

        um pequeno compasso de espera e disse-lhe:

         - Fala do quartel de Mafra, diga ao " menino " que se não se apresentar hoje até á meia-noite  , provavelmente, vai

         dar consultas para a Guiné, porque é o capitão América que está de serviço.

                    O tempo foi passando e nada do " menino " . Cerca da meia-noite os poucos que ficaram , uns por

          morarem muito longe , outros por castigos e outros ainda por terem chumbado no teste semanal, formaram

          junto ao candeeiro para serem  bem observados pelo oficial de dia, quando assisto a um retardatário a

          aproximar-se em passo de corrida. Não deu para confirmar mas pensei imediatamente que seria o " menino ".

          O capitão inicia a chamada e pouco depois chama por José António, que dando um passo em frente, mostra a

          identificação militar e entra na caserna.

                    Apenas o voltei a ver na segunda-feira, quando dirigiu-se-me , sorrindo, agradecendo e que tinha compreendido

         muito bem o telefonema, pois o referido capitão também era conhecido por ameaçar com a ida para a Guiné.Não tinha

         tido tempo para apanhar a camioneta e o Pai deu-lhe uma boleia e que no Domingo também tinha ido a casa.

                    Sai de Mafra em Novembro desse ano para Chaves e a partir daquele episódio nunca mais nos vimos, o

        que não era dificil no meio das duas companhia que existiam. uma do COM outra do CSM, que a máquina de

        guerra tinha que ser alimentada.


                                                         Linda-a-Velha, Junho de 2018

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