O lugar do morto


                    Na especialidade, mas mais acentuadamente depois de ser mobilizado,

    contavam-se histórias sobre mitos, e alguns reais, sobre o tipo de guerrilha que

    iriamos encontrar em África. Fui mobilizado para Moçambique no final de 1966,

    e a guerra nesta provincia tinha começado em 1964. Grande parte do que se contava

    era sobre a realidade Angolana, que estava muito mais quente, até pelos actos horriveis

    que apanhou, numa zona muito mais populosa que em Moçambique. Entre essas histórias

    ou mitos que se contavam, havia duas que me ficaram gravadas.

                Falava-se sobre o mata alferes e que estes eram objecto de snipers que observavam

    os que tinham óculos, apesar de se falar também que no inicio da guerra os graduados

    levavam os galões e as divisas para o mato. Como não era alferes, e não usava óculos,  não me

    preocupei muito com isso. O que me ficou na memória foi o chamado lugar do morto, lugar ao

    lado do condutor. Quando desembarquei em Mocimboa da Praia não deu tempo para pensar,

    pois foi tudo ao molhe dentro das Berliet e das Mercedes, com paragem em Diaca e  no

    Sagal, terminando em Mueda.

                Cheguei a Moçambique em Maio, tinha terminado a época das chuvas à pouco

    tempo  e, pela observação que já tinha feito, as picadas estavam em muito mal estado.

                Naturalmente aparece a primeira operação, curta,  para nos habituarmos. A coluna,

    com unimogs e carros do esquadrão, já está formada na " avenida "  em frente ao quartel, passo

    pela frente da viatura, nem olho para o banco, coloco o pé na roda trazeira e dou um impulso

    para cima do banco de madeira. Ai vamos nós, passamos aos cães de guerra e começamos a

    descer o planalto , na picada que passa por Nancatar. A descida estava em péssimo estado porque

    havia muitos sulcos provocados pelas chuvas e o  unimog baloiçava imenso. Pés bem firmes, tronco

    bem encostado e mão direita na G3 e agarrado ao banco com a mão esquerda. Acabada a descida,

    passamos as águas, a ponte e pouco depois a coluna parou para iniciarmos a nossa caminhada pela

    mata dentro. Fiquei aliviado por ter saido da picada, mas a mata metia respeito.

                Deve ter sido o " passeio " de duas noites no mato, pois apenas queriam criara habito para os chequinhas,

    foi mais andar para marcar presença e dizer que a tropa anda por ali.

                Regressamos , mais ou menos ao ponto de partida, e pouco depois apareceram os carros para nos

    trasportarem de regresso ao quartel. Mais do que o cansaço, eram as costas que me doiam. Fomos subindo

    para os carros, por mim não voltei para o banco traseiro, quase morto estava eu. Sentei-me no banco de lona,

    perna esquerda bem assente no chão, costas bem encostadas, G3 na braço esquerdo e o braço direito bem

    agarrado ao tablier , pronto para saltar ao menor problema. Foi assim que passei sempre a andar em picadas,

    acabou-se o mito do lugar do morto.


 
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