O Lopes

                                                        ( Flamínio Augusto Lopes )

            O Lopes era Furriel Miliciano da minha companhia.Nasceu em Santa Comba Dão,

    funcionário da CP.

            Como todos nós, foi apanhado pelo turbilhão da guerra colonial.Conhecemo-nos em

    Chaves, na formação do Batalhão, e ali cimentamos a nossa amizade. Não era muito

    comunicativo, mas era um amigo sempre pronto a ajudar.

            Já em Mueda a algum tempo, alguns de nós iniciamos as nossas merecidas férias e

    o Lopes despediu-se , pois ia para Angola para junto de um familiar, apanhando

    o avião correio para Porto Amélia ( Pemba ), e dali iniciar viagem para Lourenço

    Marques ( Maputo ).

            Entrámos na nossa rotina quando , á noite, soubemos que o avião tinha sido atingido,

    e que tinha saido para o mato um pelotão de uma companhia estacionada em Palma.

            Passaram-se alguns dias e sem noticias do Lopes, todos, em Mueda, temiamos o pior,

    quando, via radio, de Palma veio a informação que tinham sido encontrados no mato, o Lopes

    e o piloto, pelos militares e que tinham continuado viagem, cada um para o seu destino.

            Passado tempo lá aparece o Lopes, junto de nós e depois de abraços  conta-nos

    a aventura vivida.

            Quando sairam de Mueda rumaram a Palma para deixar um saco de correio para os

    militares ali estacionados.O piloto voava um pouco baixo, junto à costa, quando, de repente,

    o para brisas do avião se enche de óleo.O piloto alerta que tinham sido atingidos e que iria tentar

    aterragem forçada na praia, único local sem arvoredo.Assim fez e com tanta sorte que os dois nada

    sofreram e meteram-se no mato, pois ali seriam bastante facil de localizar pelas tropas da Frelimo.

        O piloto de pistola na mão e o nosso amigo Lopes a carregar com o saco de correio, estiveram

    assim  alguns dias até que foram localizados pelas nossas tropas.

        O tempo foi passando, a nossa companhia acabou a campanha de Mueda e rumou a Vila Coutinho,
   
    distrito de Tete, até que em Abril do ano seguinte todos nós regressamos á Metrópole, com pequenas

    excepções dos que ficaram em Moçambique e do nosso amigo Lopes que rumou a Angola, onde iria

    começar nova vida.

        Muitos anos depois, na nossa reunião anual em Chaves, soubemos que o nosso amigo Lopes tinha

    falecida em Angola, numa emboscada sofrida numa picada.

        Onde quer que estejas, Flaminio Augusto Lopes, o meu abraço.Gostei de te conhecer.


                                  José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex-Furriel Miliciano )


                                                                   Férias em Armação de Pera, Agosto de 2013

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