Lata de sardinhas


            Em Mueda, a minha flat era constituida por operacionais e especialistas,  sendo estes

    enfermeiro, transmissões, mecanico e vaguemestre. Ali convivemos 13 meses, faziamos as

    nossas festas nocturnas até altas horas da madrugada. Todos os dias havia militares fora do

    quartel, quer em operações, quer em patrulhas. Quando um dos operacionais saia, se fosse

    a horas que os " meninos " estavam a dormir, faziamos barulho com a preparação da saida,

    quer a vestir, quer a calçar, quer a preparar o cantil e as rações de combate e muitas vezes

    os " dorminhocos " eram presenteados com alguns conteúdos das rações de combate que não

    gostassemos. Claro que também sempre fomos presenteados com mimos verbais e algumas

    vezes com restos de rações.

           Já não era chequinha, já tinha alguns bons meses de comissão, já conhecia bem o terreno.

     Fizemos uma operação , preparada para 4 dias, mas
que acabou por levar mais tempo,

    
tendo havido necessidade de sermos reabastecidos, quer em rações  de combate quer em água.

        Já não me lembro muito bem do nome da base a assaltar, mas

    lembro-me que passamos a noite sempre a andar e apenas descansamos aos primeiros sinais do

    alvorecer.  

               
Foi no Vale de Miteda , do lado esquerdo da picada que vai para Nancatar. O terreno

    tinha muito relevo, as paragens eram curtas e apenas para a alimentação e onde descansávamos,

    verdadeiramente, era durante as noites. Era tempo de muita chuva e bastante frio nocturno, todos

    nós começamos a ficar exautos e alguns graduados foram junto do comandante da coluna para

    lhe comunicar a situação. De repente, ouve-se , ao longe, " Tropa ué, tropa ué " seguido de um

    disparo. Era sinal que já tinhamos sido detectados pelos guerrilheiros, e estes estavam a avisar

    a população civil, que sempre existia perto das bases, para os alimentar com as suas machambas.

                Perante tal situação apenas havia uma de duas soluções, regressar ao quartel, ou

    prosseguir para a base. Foi esta última que o comandante ordenou.

                A partir dali, os comandantes de secção avisaram o seu pessoal para aumentarem a

    distância entre cada um e olho bem aberto, porque eles poderão estar á nossa espera na base.

                Não se ouviu mais gritaria, nem tiros, apenas a chuva que continuava a cair. Dois grupos

    de combate, cerca de 50 militares, ficando uma secção a proteger a rectaguarda e as restantes

    fazem um semi circulo e entramos na base. Felizmente ninguém estava para nos " receber ".

    Não era uma grande base, já sabiamos antecipadamente, era um local de passagem e de

    acolhimentos dos guerrilheiros, que aproveitavam para " educar " os civis para a sua luta.

    Procedimente habitual nestas situações, palhotas inspecçionadas e incendiadas logo de

    seguida, fazendo juz ao nome, dado pela Rádio Moscovo, " Os incendiarios da 1710 ".

                " Ala que se faz tarde ", expressão militar que quer dizer , vamos embora que os

    gajos podem fazer " chover "  morteirada sobre nós.

                A chuva não paráva , e nós também não paramos para almoçar, sempre a andar

    e enfiamo-nos numa zona de floresta bastante densa, onde se caminhava apenas abrindo

    caminho à catanada.As secçõs sucediam-se á frente, para rendição, e mais uma vez foi

    chamada à atenção do comandante para haver uma pequena paragem e assim sucedeu.

                " Está no ir, está no ir ", ouviu-se a voz do comandante, todos nós, lentamente,

    levantamo-nos e recomeçamos a caminhar.

                Na última noite, finalmente a chuva parou e o céu apresentava-se bastante estrelado,

    a antecipar um nascer do dia limpo e com sol. Deixámos de ouvir os galos e o choro de crianças,

    sinal  de que não estavamos perto dos guerrilheiros nem de machambeiros.
 
                De repente, e contra o que era habitual, recebemos a ordem  para o regresso ao quartel,

    e que o encontro com o esquadrão seria nas àguas.

                Chegamos a  Mueda , ainda bastante de noite, os unimogs param em frente da caserna e

    cada um regressa ao seu local. Por mim, não consigo fazer o meu percurso habitual. Não havia

    casqueiro, o padeiro estava a aquecer o forno, as cantinas e as messes fechadas. Não consegui,

    limpar-me por dentro, com uma cervejola fresquinha. Dirigi-me para a flat Nº 2, a minha, onde

    os " meninos " estavam a dormir. Entrei, com aquelas botas de " ballet " e dirigi-me para o meu

    quarto, imediatamente seguido por " mimos " dos " meninos ", que entretanto tinham acordado.

                O meu objectivo era, como habitualmente, comer uma lata de ração, tomar banho e,

    finalmente, meter-me entre os lençóis. Seguindo esse pensamento, fui por baixo da cama, e

    descobri uma lata de sardinhas em tomate. Acto continuo, devia estar mesmo muito cansado,

    coloquei a lata a aquecer na  pequena lamparina, pertença do enfermeiro, e

    sentei-me na minha cama para me despir. Ouviu-se um estoiro que acorda , novamente, os

    camaradas da flat. As paredes do duche  ficaram cheias de fragmentos de sardinhas e de tomate,

    voltei a ouvir " mimos " dos meus camaradas de dormitório. O tempo fez esquecer esses " mimos ",

    mas provavelmente o mais suave teria sido " Checa de merda ", pois , com o cansaço, tinha-me

    esquecido de abrir a lata. Já não tomei banho e enfiei-me dentro dos lençois, sujo por fora e

    por dentro.


                                Linda-a-Velha, Julho de 2017

           José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

       
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