JOSÉ DO PATROCÍNIO

 

            José do Patrocínio era um negro, alto e forte, que trabalhava de sol a sol, no cafezal de um coronel, proprietário de terrenos a perder de vista. Regressava a casa depois de um dia de trabalho árduo na “varredura” das folhas caídas nos terrenos da plantação, tarefa obrigatória antes da colheita dos grãos que, na sua maioria, já se viam vermelhos cor de cereja, apenas intercalados por alguns grãos verdes.

            O dia estivera muito quente e húmido, o que dificultara o seu trabalho. Perto do fim do dia caíram algumas gotas de água, grossas e pesadas. E a terra que as recebera, devolvera-as de imediato para a atmosfera, saturando-a ainda mais de humidade, mas tornando-a um pouco mais fresca. O cheiro que emanava da terra molhada era agradável e doce, o que lhe fizera recordar os seus tempos da infância, quando brincava à chuva no terreiro da senzala.

 

            Caminhava apressado, em direcção a casa. Os últimos clarões do sol, davam ao céu um panorama revolto, com as nuvens ainda pesadas e com cores matizadas, que iam desde o negro até ao amarelo claro, passando pelos vários tons de vermelho e alaranjado. E José do Patrocínio alheou-se de tudo o que o rodeava, para, por instantes, toda a sua atenção se centrar naquele espectáculo maravilhoso de profusão de cores e de luz.

A luz foi enfraquecendo à medida que o sol desaparecia no horizonte e os pensamentos de José do Patrocínio voltaram a centrar-se no que era a sua vida de agora. Indiferente ao chilreio da passarada, às árvores grandiosas que ladeavam a senda estreita, à erva verde intercalada por flores primaveris com os aromas mais diversos, meditava na vida de trabalho que levava, sem um futuro à vista, que fosse melhor e diferente que a situação actual: Trabalho, mais trabalho, por um salário insignificante. Sentia-se um escravo preso àquela vida, com grilhetas mais fortes que esse outro escravo José do Patrocínio, que chefiava o movimento abolicionista quando, em 1888, foi publicada a lei que abolia a escravatura no Brasil. Dele, recebera o nome, mas não a força e os meios para poder lutar por uma vida melhor.

            Caminhava quase sem dar por isso, de forma instintiva, segurando na mão esquerda o cabo da enxada que levava sobre o ombro e com que trabalhara todo o santo dia. E, na outra mão o saco da bóia fria que lhe servira para mitigar a fome durante a jornada de trabalho.

 

            Agora, já vislumbrava na penumbra a sua Leopoldina, com o seu filho ao colo, o André, de apenas 2 anos. Eles eram o seu enleio e o seu bálsamo para as dificuldades do dia a dia. Era por eles que sonhava com uma vida melhor, sonhos que lhe pareciam quase impossíveis de alcançar. Enquanto se aproximava e os via mais distintamente, olhava a sua Leopoldina, uma negra bonita, de pele firme, suave e luzidia, sempre com um sorriso a aflorar-lhe a boca de lábios grossos e carnudos, trajada com um simples vestido de chita colorido por muitas flores, que parecia um quadro de Primavera. Ele amava-a muito, porque era muito carinhosa, meiga e gentil. Trabalhava também como serviçal na casa grande da fazenda, onde moravam o patrão e a sua família. E quando chegava à humilde choupana que lhes servia de habitação, apressava-se a cozinhar o feijão com que matavam a fome. Cozinhava bem e a fome que àquela hora sentiam, fazia com que essa refeição lhes parecesse um manjar dos deuses.

 

            José do Patrocínio tinha agora o seu pequeno André nos braços fortes, apertadinho a si, como que a querer protegê-lo do mundo cruel que o rodeava. Enquanto comia, sonhava concretizar nele, todas as suas esperanças de dias melhores para o futuro. Para ele, almejava uma outra vida, muito melhor e diferente da dele. Não sabia bem o quê, mas de certeza que haveria de ser melhor e diferente.

            Ia comendo devagar, intercalando a sua refeição com beijos e carícias ao seu filho e Leopoldina olhava-o enlevada, sentindo que toda a sua felicidade se centrava naqueles dois seres, que lhe tinham dado cor e felicidade à sua vida.

            André acabara de adormecer ao colo do pai. Foram deitá-lo na sua caminha, junto à deles, aconchegando-lhe a roupa com muito carinho.

Deitaram-se também. José, ao sentir o corpo quente da sua Leopoldina, aconchegou-se mais… E, vencidos pelo cansaço daquele dia, assim adormeceram.

                                                                                                                        Diamantino Santos

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