Cavalo na Box


                    Quando ia para as picadas, sempre fui acompanhado pelo Esquadrão de Cavalaria.Todos os oficiais

        e, especialmente, os sargentos que estávam em Mueda, eram conhecidos por mim.

                    Todos nós temos particularidades que nos identificam, e que somos perfeitamente identificados por outros.

        Fiz várias colunas em que o reponsável era o  capitão de cavalaria, que sempre que saia era bem visivel na  Fox

        com a sua camisola cinzenta, de gola alta.O episódio que conto, passou-se precisamente com o esquadrão e o capitão.

                    O meu pelotão foi encarregue de fazer uma subreposição de uma companhia estacionada em Mocimboa do

        Rovuma, que sairia da zona de intervenção.A distancia de Mueda era relativamente curta, no entanto a picada era

        bastante perigosa, ora por minas e fornilhos, ora por emboscadas.

                    Passados poucos kilómetros a coluna parou.Sai da minha posição e  ao procurar saber o que se passáva,

        deparei-me com o furriel do esquadrão a tentar tirar areia de um buraco, onde estaria um fornilho.Como  também tinha

        o curso de minas e armadilhas, ali fiquei quando o capitão se aproximou e ,olhando para mim, disse-me " o que está

        aqui a fazer?? vá imediatamente para o seu lugar ".É verdade que não estáva habituado a tal tratamento, no entanto

        apenas o olhei nos olhos, fiz a continência - o que não era vulgar nessas circunstâncias - e posicionei-me no meu lugar, já

        um pouco a ferver.O tempo foi passando, continuando ainda parados, quando se aproxima um soldado do esquadrão

        que dirigindo-se a mim diz " o meu capitão diz para lá ir " .Como ainda estáva quente, e sobretudo não gostei da atitude dele,

        respondi-lhe " Diz ao teu capitão que já coloquei o cavalo na box e que agora não tenho meio de transporte ".O soldado

        retirou-se e comecei a imaginar que, passado pouco tempo, lá vinha o homem, da camisola de gola alta, falar comigo

        a espumar pela boca.Tal não aconteceu, a coluna recomeçou , parando ainda várias vezes, quer para picar, quer

        para levantar fornilhos.

                    Chegados a Mocimboa do Rovuma, constatámos que só havia rações de combate, pois a companhia que foi

        substituida há muito que não ia a Mueda reabastecer, precisamente para não arriscar.Num dos momentos que fui á cantina,

        encontrei a pessoa que tinha levado a ordem do capitão, e disse-lhe que tinha estranhado não haver reacção , ao que

        me foi respondido que tinha dito ao capitão que não me encontrou.Acabámos, os dois, a rir e com cervejas na mão.



                                                                                        José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex-Furriel Miliciano )

                                                                                        Linda - a - Velha, Setembro de 2011

         
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