As  águas


          

                 As águas ficavam localizadas a poucos kilómetros de Mueda no lado direito da picada, no sentido Mueda / Nancatare, já

    no final da conhecida descida.

                O objectivo era fornecer água ás unidades militares e ao aldeamento civil, onde havia alguns fontanários.

                O efectivo militar era constituido sempre, no mínimo, por um grupo de combate, que se espalhava pela circunferência do terreno.

    Á época, 1967 / 68, apenas existiam três estruturas de cimento. A casa das máquinas para bombarem a água para Mueda, uma pequena

    casota onde apenas dormiam um Furriel, um Alferes e um Transmissões com o seu rádio, que também era conhecida por casa dos

    ratos, tal a quantidade que por lá havia. A terceira estrutura era a mais apetitosa, a piscina.

                Os soldados ficavam em bunkers, espanhados ao longo do perímetro,  escavados na terra e tendo no teto troncos de árvores.

    A  habitabilidade não era boa, quente de dia e frio de noite. Era o que havia e era muito melhor que estar em operações no mato.

                Em termos de segurança era muito má. Não havia nenhuma arma pesada e o que havia em termos de defesa era a G3, entregue

    a cada um de nós, uma basuca e um morteiro 60, tudo o que, por norma, pertencia a um grupo de combate.

                O perímetro era rodeado por uma vedação de arame farpado com o exterior todo armadilhado, onde , por vezes, ficavam

    alguns animais, mas que não nos atreviamos a ir buscá-los por ser muito perigoso.Todo o interior era frequentemente capinado,

    para propiciar uma melhor visão sobre o exterior.

                No período em casua nunca fomos atacados, e também não me lembro de se falar em ataques sobre os que nos antecederam.

    Sempre pensamos que os Frelos não estávam interessados em nos atacarem, naquele local, porque ao bombarmos água para o

    aldeamento estávamos  a prestar um bom serviço á população.

                No mesmo período, o nosso médico mandou encerrar a piscina, pois como não havia tratamento de água, começaram a

    aparecer pequenos problemas de pele. O problema "tecnico" foi resolvido rápidamente, como sempre foi costume com os

    Portugas, a piscina passou a ser despejada e cheia todos os dias. Com a água renovada diariamente, os problemas de pela

    desapareceram.

                Durante os dias quentes, a piscina ajudáva-nos a retemperar forças e durante os dias chuvosos e frios, todo o

    pessoal recolhia aos seu aposentos. Todas as semanas eramos abastecidos de géneros alimenticios ou ia uma secção,

    com um unimog, a Mueda abastecer-se.Não havia frigorifico, cervejolas nem ve-las , por vezes havia vinho, o que já

    era uma festa. Como eramos poucos, a confeção da comida era muito melhor e havia pão quente de manhã e á noite.

               
                                                                              Linda-a-Velha, Julho de 2016

                                                        José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

 
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