Furriel, preciso falar consigo

                    Na infantaria,  um grupo de combate é constitudo por três secções, comandadas

        por um Sargento ou Furriel com a responsabilidade de um Alferes. O meu grupo foi constituido

        de raiz por mim e mais dois Sargentos, sobre o comando de um Alferes. Quando chegámos à zona

        operacional de  Mueda, um dos sargentos foi para a arrecadação de  material de guerra e o outro

        ficou a fazer as faltas ou as férias, resultando que veio um Furriel de outro grupo e o Alferes também

        ficou a comandar uma secção.

                O tempo foi passando, já estávamos mais ou menos a meio da comissão, quando já de noite o

        Alferes comunica, a mim e a outro camarada,  para avisar que iriamos sair , pela madrugada, para três dias

        de nomadização, para o sitio do costume, Vale de Miteda. Dirigi-me para a caserna e avisei do que se passava

        e a hora da formatura de saida, seguindo imediatamente para o meu quarto, que não cheguei a atingir pois fui

        abordado por uma camarada, que não sendo da minha secção, me disse:

        - Furriel, preciso falar consigo.

        - O que se passa??? fala!!!!!

        - Furriel, sonhei que na próxima saida somos emboscados e fico lá atingido, portanto não vou.

        - O quê??? recusas-te a sair ???????

        - Não vou, Furriel.

        - Santos, não ligues a sonhos, não há nenhum assalto a bases, apenas vamos três dias de nomadização.

        - Não vou, Furriel pode dizer ao Alferes que não saio daqui para fora.

                Esta situação era completamente nova, nunca a tinha vivido. Como o Santos pertencia à secção

        do Alferes, fui á procura dele na messe, onde não o encontrei , sai do quartel e dirigi-me ao seu quarto, que

        já me tinham indicado.

        - Alferes, o Santos, da sua secção, disse-me que não vai para o mato porque sonhou que seria emboscado e que

           ficaria por lá.

        - Monteiro, o gajo vai de uma maneira ou outra, não se preocupe com isso.

        - Alferes, parece-me que ele nunca faltou a nenhuma saida e ninguém sabe da atitude dele, além de nós.

        - Monteiro, até amanhã, o assunto está resolvido por natureza.

                    No dia seguinte, já com o barulho dos carros da cavalaria, e dos nossos, o Alferes diz-me.

        - Monteiro, diga ao Santos que quando viermos vai descascar batatas durante três dias, se não estiver

            de serviço.

                 Fui comunicar ao Santos, que se encontrava na cama , a resolução do Alferes. Afinal o travesseiro

            foi bom conselheiro para o Alferes. Para mim, não deixei de pensar no sonho do Santos, durante os

            três dias no mato.


                        Nota:  O nome de Santos é um nome ficticio, apesar de já não me lembrar do nome verdadeiro.

                                        José Fernando Pascoal Monteiro ( Ex- Furriel Miliciano )

                                       
                                                    Linda-a-Velha, Maio de 2019



     
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