Mueda, 1967/68

                         O Pára


              Aqui estou há cerca de dois meses, já conheço os cantos á casa, mas ainda sou

    muito novato nestas andanças, um autentico checa, como por aqui dizem. Já fiz

    meia duzia de operações no famoso Vale de Miteda. Fisicamente tenho aguentado bem

    aquelas caminhadas rápidas, com subidas e descidas, aquele calor, aquela chuva e aquelas botas.

    Vou fazer 23 aninhos, com esta idade aguenta-se tudo, até a fome. Ainda não tivemos contacto

    com os guerrilheiros da Frelimo, os chamados " turras ", digo ainda porque estou convicto que

    irá acontecer, é inevitavel, estamos na terra deles.

        Hoje estou, pela primeira vez, de sargento da guarda. Colocaram-me uma braçadeira verde no

    braço esquerdo e uma pistola à cintura. Não conheço ninguém do corpo da guarda, devem ser da

    CCS e da Artilharia. Como não sou capaz de estar sempre no mesmo sitio, dou umas voltas pelo

    quartel e vou á minha flat dar dois dedos de conversa com quem por lá está. Em África a noite

    acorda muito cedo e depois de jantar volto á casa da guarda onde me sento á secretária, Aqui os

    pensamento voltam para a família, para os amigos e para a vida que levava em Lisboa. Comecei a

    ficar nostálgico e não gostei, levantei-me e decidi ir beber uma cervejola para acalmar. Fui ao

    bar onde estava pouca gente nas mesas e apenas um gajo encostado ao balcão. Olhei para ele,

    era Pára, coisa pouco habitual por ali pois eles frequentavam a aviação, o seu camuflado

    contrastava com o meu, já muito usado e a precisar de alguns arranjos, o que queria dizer

    que andáva naquelas andanças há muito tempo. Olhámos um para o outro, e de repente;

    - Queres beber um whisky comigo, Furriel chequinha????

    - Não, bebo apenas uma cerveja, estou de serviço.

    - Isso vejo eu, mas hoje, noite muito especial, só bebo e convido para whisky. Quem quizer

    bebe, quem não quizer também não bebe comigo.

    Ok,  respondi-lhe, venha de lá um whisky.

    Pegou nos copos e sentamo-nos a uma das mesas.

    - Checa, estou farto disto, estou quase nas " lonas ". Sempre quiz ser paraquedista mas já não aguento mais,

    operações atrás de operações, quando entramos nas bases levamos tudo atrás, com palhotas queimadas e

    galinhas no bornal e quando saimos levamos com morteirada na cabeça. Alguns dos nossos camaradas

    ficaram por aqui no vosso cemitério. Há dois meses que terminou o nosso tempo de comissão, já não

    aguentava mais esta merda toda. O Nord Atlas era para ter vindo ontém , agora dizem que chegará

    amanhã e então será a última viagem para Mueda, acabou-se regresso para a minha visa civil no Porto,

    junto dos meus Pais e  amigos.

        Entre palavras, ele falava muito mais, eu era o escutante, por vezes erguemos os copos como uma saudação,

    vi que já não existia liquido levantei-me e disse-lhe;

    - Vou buscar mais dois
whiskys e pago eu.

    -  Não, hoje quem paga sou eu.

    Levantou-se foi junto do balcão e pediu mais dois
whiskys. Apercebi-me que o barman lhe disse qualquer coisa,

    e pensei que o bar ia fechar. Assim foi, disse que amanhã lhe entregaria os copos.

    - Checa, para onde vamos acabar o
whisky ?????

    - Ficamos aqui, trazeiras das flats dos Furrieis, mas acaba com essa merda de me chamares Checa, que tenho nome.

    - Então como te chamas?????

    - José  Monteiro.

    - Oh pá, isso é demais para esta malta da tropa. De certeza que passaste a ser o  Furriel Monteiro.

    - É verdade, aqui sou conhecido assim.

    - E como eras conhecido na vida civil?????

    - Os familiares e amigos tratavam-me por José Fernando.

    - Pois, aqui passaste a ter um único nome, tiveste sorte. Os soldados, esses elementos da última escala, também

    apenas têm um nome e alguns, muitos, são tratados pelo nome da terra de origem, não têm direito ao nome 

    de batismo.
Deves ter alguns Gaia, outros Amarante, outros Guimarães, outros Lisboa, e por aí fora ao sabor

    da nossa geografia. A tropa molda-nos, cilindra-nos, rouba-nos a alma, ficamos diferentes e apenas o regresso é  bom.

    - Como te chamas e o que fazias na vida civil????

    - Alfredo Santos e andava a estudar enfermagem. Interrompi o curso com a mania  de querer ser paraquedista.

    - Então aqui és o Furriel Santos.

    - Sim, sou o Furriel Santos, enfermeiro. Estes gajos ainda são mais doidos do que eu. Andam atrás de mim com

    papeis para assinar e seguir a carreira militar. Dizem que posso fazer uma excelente progressão. É a segunda

    vez que me querem aliciar. Já lhes disse que fui voluntário e que fiquei vacinado. Não, quero voltar para a visa

    civil e ser enfermeiro de corpo e alma, com diploma. Acabou-se a tropa, chega.

    Levantamo-nos, nos copos já não havia
whisky, apenas o cheiro dele. Fomos caminhando, lentamente, para
    
    a porta de armas e demos um forte abraço.

    - Foi um prazer conhecer-te, José Fernando.

    - Tive muito gosto, Alfredo Santos, enfermeiro.

    Dirigi-me para o interior da casa da guarda e ainda ouvi, já ao longe.

    - Tens muito que aguentar Furriel Checa.

    Ri-me e disse para mim em surdina;

    - Sacana de coquana, boa viagem.

          Eis mais uma pequena vivência contada ao sabor do tempo que passa.

   
 
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